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Assobio de orangotango pode indicar como evoluiu
a linguagem
Que Bonnie assobie não é surpresa para os seus
tratadores. O orangotango de 63 kg, que vive no
Zoológico Nacional dos Estados Unidos, em
Washington, costuma assobiar há duas décadas.
Agora, um novo estudo sugere que os sons que ela
faz poderiam oferecer pistas sobre as origens da
linguagem humana.
"A suposição é de que alguém estivesse
assobiando e Bonnie tivesse começado a imitar a
pessoa", disse Erin Stromberg, uma das
responsáveis pelo tratamento dos animais no
zoológico e co-autora do estudo.

Lisa Stevens, curadora encarregada dos primatas
e dos pandas gigantes no zoológico, disse que o
ponto principal da observação é que o
orangotango não havia sido treinado para
assobiar.
Embora seja possível ensinar orangotangos a
emitir sons novos, por meio de treinamento
prolongado, Bonnie representa a primeira
indicação de que animais são capazes de imitar
independentemente os sons produzidos por outra
espécie.
"É algo que ela desenvolveu espontaneamente",
disse Stevens. "Não se trata de um truque".
Imitando movimentos
Sabe-se que os orangotangos costumam imitar os
seres humanos. Bonnie, por exemplo,
ocasionalmente varre o chão por onde ela passa,
como os tratadores fazem, ainda que o pessoal do
zoológico não encoraje esse comportamento.
Serge Wich, o responsável pelo estudo, membro do
Great Ape Trust, uma organização de pesquisa e
defesa dos primatas sediada no Iowa, disse que
orangotangos já foram vistos fingindo lavar
roupas, na Indonésia.
"Sabemos que eles são capazes de imitar essas
capacidades motoras, mas jamais havíamos
encontrado bons indicadores quanto a sinais ou
vocalizações", disse Wich, que apresentou os
resultados de sua pesquisa em um simpósio na
Universidade de Zurique, Suíça, em 18 de
dezembro. "Agora pelo menos temos uma indicação
de que eles são capazes de imitar sons" sem que
sejam treinados.
O próximo passo seria estudar até que ponto o
aprendizado de sons dos primatas é flexível, e
se eles são capazes de ajustar seus sons - tom e
registro, por exemplo -, a depender do contexto,
disse Wich.
"Essas coisas são muito importantes", ele disse,
"porque nos oferecem pistas para compreender a
evolução da fala humana".
Trabalhando com assobios
Ainda que Bonnie pareça ter aprendido a assobiar
simplesmente pelo prazer do assobio - e não como
forma de imitação direta ou de atrair atenção -,
ela se dispôs a imitar os assobios de Stromberg
para o estudo.
"Bonnie respondia com um assobio curto aos
assobios curtos e com um assobio longo aos
assobios longos", disse Wich.
W. Tecumseh Fitch, da Universidade de St.
Andrews, na Escócia, diz que a pesquisa
demonstrou que os orangotangos têm melhor
controle sobre sua respiração do que os
cientistas imaginavam anteriormente. Fitch, que
se especializa na evolução da fala e não
participou do estudo, diz que a pesquisa oferece
"nova confirmação de uma velha idéia, a de que
os macacos têm controle complexo e voluntário
sobre a boca, lábios e língua, exatamente como
nós", ele afirmou.
"O que lhes falta é controle sobre a laringe", a
parte da garanta que contém as cordas vocais,
acrescentou.
Variações vocais
Charles Snowdon, da Universidade do Wisconsin,
apontou que os assobios de Bonnie não são tão
complexos quanto as imitações de alguns pássaros
e até golfinhos.
"Houve muita controvérsia sobre a possibilidade
de primatas não humanos aprenderem a vocalizar,
ou a modificar vocalizações", disse Snowdon, que
estuda a comunicação acústica e seu
desenvolvimento e não participou da pesquisa.
"Até agora, havia poucas provas de imitação
direta de vocalizações por um primata", ele
disse. "A questão realmente interessante é
determinar por que é tão difícil encontrar mais
provas sólidas de imitação vocal".
Wich apontou que outro orangotango cativo, que
no passado vivia com Bonnie mas morreu alguns
anos atrás, aparentemente aprendeu a assobiar
com ela, de acordo com os tratadores. Caso os
orangotangos aprendam novos sons uns dos outros,
isso poderia explicar as variações nos sons
geradas por diferentes populações de
orangotangos na natureza.
Stromberg diz que faz sentido que esse
orangotango tenha a capacidade de imitar sons
humanos.
"Bonnie é muito intuitiva", ela disse. "Ela é
muito observadora, e sempre olha para as pessoas
e presta atenção no que fazem".
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