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Nuvens de metano em Marte podem indicar
vida
Eric Hand
Mais de quatro anos depois que os pesquisadores
informaram pela primeira vez sobre a descoberta de gás
metano em Marte, um cientista alega que conseguiu
"confirmar firmemente" a controvertida detecção e
identificar as principais fontes do gás.

Na Terra, o metano tem origem primordialmente biológica;
em Marte, ele poderia sinalizar a presença de micróbios
vivendo em grande profundidade no subsolo. As mais
recentes pesquisas sugerem que o metano marciano esteja
concentrado tanto no espaço quanto no tempo - como uma
série de pontos de concentração de centenas de
quilômetros de extensão, formando plumas de fumaça de
metano que florescem e se dissipam em menos de um ano.
As notícias sobre a detecção já vinham circulando entre
os estudiosos de Marte há alguns meses, e bem no momento
em que começa a ser discutido o local de operação do
Mars Science Laboratory (MSL), um veículo de exploração
de superfície de US$ 2 bilhões que deve ser lançado em
2009 para avançar os estudos do planeta.
O MLS transportará um instrumento capaz de detectar
tanto a presença de sinais modestos de metano e de
ajudar a discernir se eles têm origem geológica ou
botânica. Uma das nuvens de metano supostamente
detectadas cobre um dos sete possíveis locais de pouso
do MSL: Nili Fossae, que não encontrou destaque como
local de pouso entre a comunidade científica em uma
avaliação conduzida em setembro, a qual não levou em
consideração os detalhes emergentes sobre a presença de
metano.
"Agora é como se tivéssemos placas no planeta que dizem
'ei, estou aqui, venham para cá!'", diz Michael Mumma,
cientista planetário do Centro Goddard de Vôo Espacial
da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço
(Nasa), em Greenbelt, Maryland. Ele apresentou os
resultados do trabalho de sua equipe em uma reunião da
Sociedade Astronômica Americana em Ithaca, Nova York, no
dia 11 de outubro.
Mumma vem argumentando em defesa da presença de metano
em Marte desde 2003, quando algumas outras descobertas
iniciais começaram a emergir. Um grupo, utilizando o
telescópio financiado pela França, Canadá e Havaí no
monte Kea, Havaí, encontrou índices planetários
residuais de metano da ordem de 10 partes por bilhão,
mas não conseguiu localizar outros detalhes.
Um segundo grupo, usando milhares de imagens
espectrográficas obtidas pelo explorador orbital Mars
Express, da Agência Espacial Européia (ESA), encontrou
nível planetário semelhante de metano residual, com
indicações de possíveis variações regionais de
concentração. Mas parte do impacto desse estudo foi
diluído quando o diretor científico, Vittorio Formisano,
do Instituto de Física e Espaço Interplanetário de Roma,
apresentou também alegações separadas sobre a presença
de amônia e formol, que não foram substanciadas.
Mumma, um especialista em imagem espectrográficas,
obteve dados de telescópios no Havaí e no Chile, para
sustentar a idéia de pontos de concentração de metano.
Agora, ele diz que sabe ao certo e que está pronto a
publicar seus resultados. Depois de acumular mais quatro
anos de dados, Mumma confirmou a presença de metano
equiparando quatro linhas em suas imagens
espectrográficas da atmosfera do planeta à assinatura
característica do metano - uma determinação mais
definitiva do que análises anteriores - e encontrou mais
provas de que o metano está concentrado em focos
geográficos separados, com presenças da ordem de 60
partes por bilhão como pico de concentração.
"Os números dele mudaram consideravelmente ao longo do
tempo. Mas Mike apresenta argumentos bastante
convincentes¿, diz Steven Squyers, cientista planetário
da Universidade Cornell, em Ithaca, e diretor científico
dos veículos de exploração de superfície Spirit e
Opportunity, que realizaram trabalhos de pesquisa em
Marte.
Mais importante que os picos de concentração, diz Mumma,
é a curta duração das nuvens de metano. Anteriormente,
acreditava-se que o metano fosse destruído pela luz do
sol na atmosfera - um processo lento que permite que o
gás se misture com a atmosfera e persista por cerca de
300 anos.
Uma presença planetária da ordem de 10 partes por bilhão
combinada a uma duração de centenas de anos significa
que algumas centenas de toneladas de metano estariam
chegando à atmosfera a cada ano: o equivalente ao
trabalho de alguns poucos milhares de vacas.
Mas as nuvens de 60 partes por bilhão com duração de
menos de um ano indicam ritmo de produção de metano
algumas ordens de magnitude mais elevado. "Isso é
importante", diz Sushil Atreya, da Universidade do
Michigan em Ann Arbor, co-autor do estudo sobre o
trabalho do Mars Express em 2004.
Determinar se a origem das nuvens de metano é orgânica
ou geológica é impossível, por enquanto, de acordo com
Atreya. Por exemplo, pode ser que haja micróbios vivos
na região recoberta por uma espessa camada congelada, e
o metano que emitem como resíduo poderia subir à
superfície.
O metano também pode surgir de reações químicas nas
quais rochas vulcânicas enterradas, ricas no mineral
olivina, interagem com a água.
Uma terceira possibilidade seria que o metano esteja
escapando de clatratos enterrados, depósitos de metano
em forma de gelo formado no passado por um dos dois
mecanismos mencionados acima.
Mas o próximo veículo de exploração de Marte da Nasa
poderá analisar, em nível de partes por trilhão, as
concentrações fracionais de isós de carbono em cada
molécula de metano. A vida na Terra prefere processar os
átomos de carbono 12, mais leves. E, assim, caso o
metano de Marte tenha carbono 12, isso pode indicar
origem biológica.
John Grotzinger, geólogo do Instituto de Tecnologia da
Califórnia, em Pasadena, e diretor científico do MSL,
diz que a detecção de metano pode ser importante na
escolha do destino do veículo.
"Vamos considerar a questão seriamente", afirma.
"Precisamos avaliar os dados e determinar se Nili Fossae
é o único local em que isso acontece". Os resultados
sobre o metano podem ser debatidos em um reunião no mês
que vem, na qual os sete locais serão avaliados do ponto
de vista da engenharia e segurança.
Uma alteração de prioridade quanto aos sites pode ser
realizada, diz Grotzinger, mas ele precisa de dados
sólidos para isso. "Palestras não contam. O estudo
precisa ter sido publicado", diz.
O relatório de pesquisa de Mumma está sob revisão pela
revista Science.
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