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Cientistas: genes possuem múltiplos significados


Eu devo uma desculpa aos meus genes. Por anos, eu atribuí a eles, sem nem pensar muito, a culpa por certos defeitos usualmente associados ao pacote hereditário inicial de cada pessoa - o Mal de Graves, uma doença do sistema imunológico de que sofro, por exemplo, ou meu cabelo, que se parece com as fibras que ficam para trás no gargalo do vidro de aspirina depois que a bola de algodão é retirada, mas em tufos ainda menos espessos.

Agora, surgiram informações que parecem indicar que os genes, em si, são frágeis demais para que sejam responsáveis por grande coisa. Pela definição tradicional, genes são aqueles alinhamentos de letras do ADN que servem como instruções para a criação das proteínas do corpo, e lamento dizer que, quanto mais os observamos, menos instrutivos parecem - são menos um "plano básico da vida" do que um daqueles decepcionantes folhetos de montagem de duas páginas que chegam com o seu computador, instruem onde você deve ligar a tomada e depois aconselham que procure um site para obter mais informações.

Os cientistas descobriram que os "genes" canônicos respondem por uma parte embaraçosamente pequena do genoma humano - talvez 1% dos três bilhões de unidades emparelhadas de ADN que existem em quase todas as células do corpo se qualifiquem como códigos protéicos indisputáveis. Os cientistas também estão descobrindo que muitas das regiões livres de genes em nosso ADN são muito mais loquazes do que imaginavam anteriormente, muito mais dispostas a se expressar de maneiras que nada têm a ver a com a produção de proteínas.

De fato, não posso nem mesmo fazer a fácil transição lingüística de culpar os genes pelo meu ADN todo, porque a questão agora não se resume apenas ao ADN. Temos também o ARN, primo químico do ADN, que faz coisas complicadas, e algumas vezes coisas que não deveria estar fazendo. Não muito tempo atrás, o ARN era visto como um burocrata, a molécula intermediária entre o gene e a proteína, definido pela frase "ADN faz ARN que faz proteína".

Agora, foram encontrados casos de pequenas seqüências de ARN que agem exatamente como o ADN, transmitindo segredos genéticos à próxima geração diretamente, sem solicitar permissão. Temos também casos de ARN agindo como proteína, catalisando reações químicas, tirando outras moléculas de posição ou dispersando-as. O ARN é como o posto de vice-presidente nos Estados Unidos: um pouco executivo, um pouco legislativo, muito furtivo.

Para muitos cientistas, o retrato cada vez mais barroco do genoma revelado por suas pesquisas mais recentes, bem como a confusão das categorias moleculares distintas, era um resultado esperado. "É o processo normal da ciência", disse Jonathan Beckwith, da Escola de Medicina de Harvard. "Você começa simples e a complexidade logo se desenvolve".

E os pesquisadores tampouco estão preocupados com a turbulência lingüística que possa surgir, ou com qualquer confusão quanto ao que querem dizer ao se referir a genes. "Os geneticistas abusam alegremente da palavra 'gene', para indicar muitas coisas em muitos contextos distintos", disse Eric Lander, do Instituto Broad. "Isso pode ser fonte de imensa consternação para as pessoas que estão observando de fora e tentando entender a conversação, mas não incomoda os profissionais do setor".

Na opinião de Lander, essa imprecisão terminológica é um risco ocupacional. "Estamos tentando deslindar um sistema incrivelmente complexo", ele disse. "É como a economia dos Estados Unidos. Quais são as unidades funcionais? Empregadores e empregados? Consumidores e produtores? E se você for um freelancer com múltiplos empregadores? Onde encaixamos os mercados locais e o eBay em nossa taxonomia?"

"O fato de que se torna necessário empilhar algumas coisas no modelo, sem muita precisão, à medida que avançamos, não deveria causar preocupação", ele diz. "Jamais se pode capturar algo como uma economia, um genoma ou um ecossistema com um único modelo ou taxonomia - tudo depende das perguntas que você deseja fazer".

Lander acrescenta: "É preciso poder dizer que essa é a simplificação da terça-feira; a de quarta pode ser diferente. E ter sempre em mente que progressos incríveis foram conseguidos com base nessas simplificações". Para outros pesquisadores, porém, o vocabulário da biologia molecular precisa seriamente de uma reforma, a começar por aquele nosso sorrateiro amigo, o gene. "A terminologia representa uma bagagem histórica", diz Evelyn Fox Keller, historiadora da ciência e professora emérita do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). "Ela surge da expectativa de que, se encontrarmos unidades fundamentais que fazem com que coisas aconteçam, se pudermos encontrar os átomos da biologia, seria possível compreender o processo".

"Mas a idéia do gene como átomo da biologia é um grande engano", disse Keller, autora de "The Century of the Gene" o século do gene e outros livros. "O ADN não vem equipado com genes. Vem equipado com seqüências que as células executam de determinadas maneiras. Não existem genes sem as células. Temos de nos afastar da suposição intrínseca de que existem unidades hereditárias particuladas, à qual parecemos nos apegar".

Keller é uma grande fã da idéia de que a espiral dupla do ADN deve ser considerada tanto de maneira isolada quanto em seu ambiente celular natural. "O ADN é um recurso imensamente poderoso, a mais brilhante invenção na história da evolução", ela disse. "E se trata de uma molécula muito mais rica e mais interessante do que poderíamos ter imaginado quando começamos a estudá-lo".

Ainda assim, ela diz, "ele não faz nada sozinho". Para Keller, se trata de uma molécula profundamente relacional, que só tem significado no contexto da célula. O foco inflexível nos genes, ela diz, nos mantêm presos a uma visão de vida linear, unidirecional e bidimensional, sob a qual instruções são lidas e cumpridas rigorosamente.

"O que faz do ADN uma molécula viva é a dinâmica da coisa, e um vocabulário dinâmico poderia ser útil", ela diz. "O que quero dizer é que precisamos fazer da biologia um conjunto de verbos". E alterar a terminologia, igualmente. Em artigo publicado pela PloS One no ano passado. Keller e David Harel, do Instituto Weizmann de Ciência, sugeriram como alternativa a gene a palavra "dene", que eles propõem seja usada para conotar qualquer seqüência de ADN que desempenhe um papel em uma célula. Até agora, admite Keller, a idéia não pegou.

Por mais complexo que seja o nosso genoma, ele obviamente pode ser compreendido. Nossas células o fazem a cada dia. Mas, como apontou certa feita o médico e ensaísta Lewis Thomas, o nosso fígado é muito mais inteligente do que nós; ele disse que preferiria ser chamado a tomar o comando de um Boeing 747 voando a 12 km de altura sobre Denver do que comandar as funções de seu fígado. "Nada me salvaria, ou ao meu fígado, se eu estivesse no comando", ele escreveu.

De forma semelhante, podemos jamais compreender o funcionamento de nossas células e de nosso genoma com o mesmo conforto e confiança com que compreendemos os artefatos criados pelos seres humanos. "Nós evoluímos de maneira a solucionar problemas", diz Keller. "Mas entre eles não está incluído a compreensão de como os nossos sistemas operam - isso não propiciaria muita vantagem evolutiva". É bastante possível, ela afirma, que a biologia seja "irredutivelmente complexa", e não inteiramente acessível a análise racional. O que não significa dizer que estejamos perto de um impasse em nossos estudos.

"Nossa biologia está estendendo o alcance de nossas mentes. É mais um circuito no processo evolutivo". E caso os genes canônicos representem uma forma não muito satisfatória de explicar as pessoas a elas mesmas, é sempre possível recorrer ao mais leal dos bodes expiatórios. Atribua a culpa toda à sua mãe, que com certeza o amava ou demais ou de menos, e certamente de maneira completamente errada.
 

 

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