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Cientistas defendem pesquisas clínicas
"reais"
Sylvya Syvensky foi a uma consulta de rotina com seu
dentista no começo de outubro. Ela esperava substituir
duas próteses dentárias. Mas algo de terrivelmente
errado aconteceu. "Senti como se estivesse sufocando",
disse Syvensky. "Não conseguia respirar. Minha
respiração era forçada, e eu estava emitindo ruídos
estranhos, como se gargarejasse".
Ela foi conduzida em ambulância para tratamento de
emergência no Hospital Universitário perto de sua casa
em Edmonton, na província de Alberta, Canadá.
Os médicos colocaram uma máscara em seu rosto e
injetaram ar por via forçada em seus pulmões. Ela foi
informada que havia sofrido uma parada cardíaca. Depois
que sua condição foi estabilizada, eles a convidaram
para se tornar um dos participantes em um estudo sobre
um novo medicamento que a ajudaria a respirar.
Como muitas pessoas que chegam aos hospitais sofrendo de
parada cardíaca, Syvensky enfrentava dificuldades de
respiração. Mas é a última pessoa do mundo que
normalmente seria convidada a participar de um estudo de
medicamento.
Aos 70 anos de idade, ela é muito mais velha que os
demais participantes da pesquisa, e seus sintomas eram
altamente complexos.
No entanto, estamos vivendo um movimento crescente
quanto à coleta de novas formas de indícios médicos, da
espécie que preencherá algumas das maiores lacunas na
ciência médica: qual é o melhor tratamento para
pacientes típicos que apresentam sintomas complexos como
Syvensky? Muitos deles são idosos, padecem de diversas
condições crônicas e utilizam diversos medicamentos não
relacionados.
E quais são os efeitos em longo prazo de um tratamento -
o índice de fatalidades, os efeitos colaterais, o ritmo
de progressão da doença?.
Um grupo de proponentes que inclui instituições de
pesquisa médica, associações de medicina e seguradoras
está fazendo lobby junto ao Congresso dos Estados Unidos
para que seja criado um Instituto de Pesquisa de
Eficiência Comparativa, que avaliaria tratamentos e
identificaria as lacunas nas provas concretas.
Nos casos em que existam lacunas, o instituto iniciaria
o que vem sendo chamado de testes de pesquisa clínica
"reais" ou "pragmáticos", a fim de recolher indícios.
Alguns importantes pesquisadores que costumavam defender
o sistema vigente de pesquisa médica mudaram de posição.
"Houve uma virada de 90 graus no pensamento a esse
respeito", disse o Dr. Eugene Braunwald, um renomado
cardiologista da Escola de Medicina de Harvard. "Eu
mesmo mudei de posição quanto a isso".
Ainda que milhares de estudos médicos sejam concluídos a
cada ano, a maioria deles apresenta objetivos
relativamente limitados. Os estudos muitas vezes
selecionam cuidadosamente pacientes que apresentem
poucos problemas médicos que não o que está em estudo, o
que torna mais fácil obter resultados claros. Eles podem
não contemplar efeitos de longo prazo, sob a suposição
de que se um tratamento ajuda, inicialmente, isso
beneficiará os pacientes.
Mas embora estudos como esses possam ajudar um
medicamentos a conquistar aprovação ou a responder a uma
questão de pesquisa restrita, eles também podem deixar
pacientes e médicos na berlinda, porque pode ser que não
revelem como o novo medicamento ou tratamento virá a
funcionar quando vier a ser aplicado a pacientes reais
que sofrem de problemas complexos.
Estudos limitados como esses, embora possam ter valor,
talvez tenham deixado de ser suficientes, especialmente
em uma era de tratamentos médicos tão dispendiosos e na
qual provas reais se tornaram mais importantes.
"Elas ocupam posição central em nossa dificuldade para
tomar decisões", disse o Dr. Scott Ramsey, professor de
medicina na Universidade de Washington.
Trata-se de uma questão que ressurge repetidamente. Por
exemplo, ela é um dos motivos para o debate sobre o
popular medicamento de combate ao diabetes Avandia, ou
rosiglitazone.
Quando o remédio foi testado, a questão básica foi
determinar se ele reduzia o nível de açúcar no sangue, o
que ele faz. Depois que chegou ao mercado, porém, alguns
pesquisadores encontraram indícios de risco mais alto de
ataque cardíaco, um dos principais fator de fatalidade
no diabetes. Mas não existia maneira de saber ao certo
se isso procedia com base nos estudos que resultaram na
aprovação do remédio.
Ao mesmo tempo, o movimento em defesa de testes mais
pragmáticos requereria não menos que uma completa
reformulação na maneira pela qual pesquisas médicas são
financiadas e geridas.
"Existe essa imensa disparidade entre as questões que os
pesquisadores consideram interessante estudar, as
questões que a indústria e o Instituto Nacional de Saúde
escolhem financiar e aquelas que os usuários das
informações mais gostariam de ver respondidas", disse o
Dr. Sean Tunis, diretor do Centro de Políticas de
Tecnologia Médica, uma organização sem fins lucrativos
que estuda maneiras de encontrar melhores provas em
estudos médicos.
"Um começa pela cabeça e outro começa pelos pés, e não
se encontram no meio do caminho", disse o Dr. Robert
Califf, professor de cardiologia na Escola de Medicina
da Universidade Duke e diretor científico do estudo
sobre paradas cardíacas.
Ele menciona o estudo, do qual Syvensky participa, como
um modelo daquilo que se tornou urgentemente necessário
na medicina.
O estudo, o maior já conduzido sobre paradas cardíacas,
envolve 15 vezes mais participantes que qualquer estudo
precedente envolvendo o medicamento nesiritide.
Ao contrário dos trabalhos que precederam a aprovação do
medicamento, o trabalho envolve pacientes como aqueles
que os médicos costumam encontrar a cada dia. Qualquer
pessoa que apareça em um dos 450 centros médicos
participantes em todo o mundo apresentando sintomas de
dificuldades respiratórias relacionadas a parada
cardíaca é elegível para participar.
Os participantes são designados aleatoriamente para
receber nesiritide em forma de infusão ou um placebo. E
o estudo, comparando os tratamentos, propõe duas
perguntas simples: os pacientes continuam vivos um mês
mais tarde? E tiveram de ser internados novamente?.
Califf conhece muito bem o problema da obtenção de
provas médicas. Ele passou anos integrando comitês que
formulam diretrizes médicas para o tratamento de
pacientes de doenças cardíacas.
E vezes sem conta, diz, ele e outros membros dos comitês
enfrentam um problema. Os estudos não tentavam
determinar se um tratamento era melhor do que outro e
não perguntavam o que acontecia em períodos mais longos,
comuns entre pacientes típicos portadores de problemas
médicos complicados. "Nós estudamos as diretrizes do
Colégio Americano de Cardiologia e da Associação
Cardíaca Americana", ele diz. "Cerca de 15% dessas
diretrizes se baseavam em provas clínicas sólidas. E a
cardiologia é uma das áreas nas quais dispomos de mais
provas".
Ele acrescentou que não estava atacando os estudos que
envolviam número menor de pacientes e que muitas vezes
estudavam os efeitos de um medicamento por prazo mais
curto.
"É preciso determinar a dosagem correta, e se aquele
tratamento pode funcionar", diz Califf. Mas existem
casos em que é preciso mais.
A Food and Drug Administration (FDA, agência federal
norte-americana que regulamenta alimentos e remédios)
não oferece regras firmes e claras sobre o nível de
prova necessário a demonstrar a eficiência de um
medicamento, diz o Dr. Robert Temple, diretor de
política médica do Centro de Avaliação e Pesquisa de
Medicamentos da organização.
Muito depende do que se conhece sobre os efeitos do
remédio em curto prazo, e da qualidade das projeções
sobre os resultados de seu uso em prazo mais longo.
Mas, acrescentou, existem preocupações práticas quanto
aos grandes testes pragmáticos, porque as empresas
precisam considerar uma ampla gama de possíveis efeitos
ao testar um medicamento.
"Se você conduz um estudo sobre uma gama ampla de
desfechos, envolvendo 10 mil pessoas, da mesma maneira
que conduz um estudo clínico de curto prazo, não
conseguirá completar seu trabalho nunca", diz Temple.
"Não estamos falando de mocinhos e bandidos, nesse
caso", disse o Dr. Kevin Weiss, presidente do Conselho
Americano de Certificação Médica. "As companhias
farmacêuticas estão tentando cumprir suas obrigações. A
FDA está tentando cumprir suas obrigações. Mas essas
obrigações não estão plenamente conectadas às
necessidades públicas quanto a esse assunto".
No caso da nesiritide, isso era parte do problema. No
começo, tudo parecia estar correndo bem. O medicamento
dilata os vasos sangüíneos, o que torna mais fácil para
o coração bombear sangue para o resto do organismo. Com
isso, os pacientes respiravam melhor.
A FDA aprovou o medicamento em 2001, com base em estudos
que questionavam sobre a respiração dos pacientes nas
primeiras horas depois de uma parada cardíaca e excluíam
pacientes que apresentassem sintomas tão complexos
quanto os de Syvensky, ainda que ela represente um caso
típico para cerca de metade dos pacientes de paradas
cardíacas.
Os pacientes nos estudos originais em geral eram homens
brancos com idade média de 60 anos. Mas mais de 800 mil
norte-americanos de 65 anos ou mais foram hospitalizados
por paradas cardíacas em 2006, o ano mais recente quanto
ao qual existem estatísticas disponíveis.
Em 2005, surgiram dúvidas. Os pesquisadores compararam
dados de diversos estudos da nesiritide. Uma análise
reportou danos às funções renais, e uma segunda um
índice de fatalidades mais elevado. As vendas do remédio
despencaram.
Mas nenhum estudo tinha dimensão suficiente para
determinar se os riscos em questão eram reais, e
combinar estudos de menor porte em uma chamada
meta-análise pode apresentar resultados enganosos.
De fato, disse o Dr. Adrian Hernandez, cardiologista da
Universidade Duke, as meta-análises vêm sendo um assunto
arriscado. Quando as conclusões a que elas chegam são
testadas em estudos posteriores, o índice de acertos que
apresentam não supera os 60%.
Elas são úteis para desenvolver hipóteses ou talvez nos
casos em que testes clínicos se provem impraticáveis.
Mas como prova científica? São mais ou menos tão
precisas quanto decidir no cara ou coroa.
Com os temores referentes ao remédio se agravando, a
fabricante, Johnson & Johnson, pediu que Braunwald
montasse um painel de especialistas que pudesse
assessorá-la.
As questões sobre a nesiritide eram tão prementes,
concluiu o painel que Braunwald constituiu, que o
remédio só deveria ser utilizado para os pacientes em
condições mais graves, e em ambiente hospitalar. E para
resolver a questão a empresa deveria conduzir um grande
teste pragmático considerando os resultados clínicos em
pacientes típicos.
"Os dados com os quais o remédio foi aprovado eram muito
limitados", disse Braunwald em entrevista recente. "E
porque a questão havia sido proposta em duas
meta-análises, elas mesmas controversas, a idéia de um
teste clínico baseado em resultados de tratamentos
práticos parecia muito natural".
O Dr. Steven Goodman, oncologista e especialista em
estatísticas biomédicas da Escola de Medicina da
Universidade Johns Hopkins, por sua vez, propõe
ressalvas aos testes clínicos pragmáticos em larga
escala.
"Quando descritos inicialmente, eles sempre parecem
maravilhosos", ele disse. Mas, acrescentou, existe uma
dificuldade: "Nesses testes, muitas vezes a questão do
motivo termina desconsiderada".
Os testes pragmático, ele explica, funcionam melhor
quando são simples, por exemplo medindo resultados
sérios como internações ou óbitos, mas não tão bons
quanto a questões menores, a exemplo do volume de
medicamento aplicado, da qualidade de um procedimento ou
da precisão na leitura de um raio-X.
Pode ser que uma operação não funcione bem no mundo real
porque ela requer mais capacitação e treinamento do que
normalmente é possível encontrar em mais do que alguns
centros médicos. Um teste pragmático pode demonstrar que
cirurgias não estão funcionando, mas não explicará os
motivos para que não estejam.
Os cientistas, acrescentou Goodman, não gostam de
abandonar a busca de motivos. E isso conduz à questão de
quem vai pagar por esses estudos. O programa federal de
saúde Medicare paga tratamentos mas não custeia estudos.
As seguradoras, diz Goodman, que ajuda a revisar provas
médicas para a Blue Cross Blue Shield, poderiam ser
vistas como envolvidas em conflitos de interesses caso
venham a bancar estudos, porque podem se ver forçadas a
pagar por tratamentos cuja eficácia seja comprovada.
Os fabricantes de remédios ocasionalmente conduzem
testes pragmáticos, diz Alan Goldhammer, vice-presidente
de assuntos regulatórios na Pharma, uma associação
setorial do setor farmacêutico. Mas usualmente isso
acontece quando "existem questões quanto ao remédio e
elas podem afetar o produto e o mercado".
No Instituto Nacional da Saúde norte-americano, diz a
Dra. Elizabeth Nabel, diretora do Instituto Nacional do
Coração, Pulmão e Sangue, "muitos de nós adorariam ver
mais estudos como esses". Mas, acrescenta, "nosso
orçamento é limitado e nossa capacidade de ação não é
infinita".
O estudo sobre a nesiritide surgiu como resultado direto
da recomendação do painel de Braunwald. A Johnson &
Johnson está pagando pelo trabalho. Mas a conduta,
orientação e análise de resultados são coordenados pela
Universidade Duke, nos termos de um consórcio acadêmico,
e estão sob a autoridade de um executivo acadêmico e um
conselho de orientação independentes.
Quando o estudo começou, alguns especialistas cardíacos
afirmaram que ele jamais conseguiria número suficiente
de pacientes. Quem aceitaria ser submetida
aleatoriamente a tratamento com remédio ou placebo para
aliviar a respiração?.
Mas as metas de recrutamento vêm sendo excedidas, até o
momento, diz Hernandez, o que ele atribui ao entusiasmo
dos pesquisadores. E, acrescenta, já há mais pacientes
norte-americanos de parada cardíaca aguda participando
desse estudo do que em qualquer projeto anterior.
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