Igreja Renascer fez reforma irregular em templo onde
teto desabou
do Agora
A Igreja Renascer em Cristo fez em 2008 uma reforma
irregular no telhado do templo que desabou na noite de
domingo no Cambuci (centro de SP). Nove mulheres
morreram e 124 pessoas ficaram feridas.
Entre agosto e novembro, todas as 1.600 telhas do templo
foram substituídas. O bispo Geraldo Tenuta Filho,
presidente da Renascer, confirmou a informação ontem,
após a Defesa Civil apontar que foram localizados
materiais novos nos destroços --telhas e peças de
ar-condicionado. Anteontem, Tenuta havia dito que a
última reforma do prédio foi há três anos e que no ano
passado houve só uma pintura da fachada.
A troca do telhado não foi informada à prefeitura, como
exige a legislação municipal, segundo o secretário da
Habitação, Orlando Almeida Filho.
Não se pode afirmar, porém, se a reforma é a origem do
acidente. A Polícia Civil abriu inquérito para apurar o
caso.
Andre Penner/AP

Desabamento do teto da Renascer causa mortes e deixa
feridos em São Paulo; acidente ocorreu durante intervalo
entre cultos
O coordenador da Defesa Civil de São Paulo, Orlando
Rodrigues de Camargo Filho, levantou a hipótese de
sobrecarga de peso na estrutura de madeira que sustenta
o telhado, com a instalação, por exemplo, de aparelhos e
tubulações de ar-condicionado e câmeras de TV. Ele disse
ter trabalhado em outro caso de desabamento do telhado
de uma igreja causado exatamente por esse motivo.
"Normalmente eles colocam um forro de gesso, que pesa,
colocam ar-condicionado, tubulações e a própria telha."
Daniel dos Anjos, dono da Etersul, contratada pela
Renascer para trocar as telhas, disse que não houve
sobrecarga de peso no telhado pois as novas telhas são
idênticas às antigas. Segundo ele, havia goteiras e
telhas remendadas.
O prédio já teve problemas no telhado em 1999. Segundo a
prefeitura, o alvará de funcionamento como igreja só foi
emitido em 2000 após o IPT (Instituto de Pesquisas
Tecnológicas) atestar a segurança da estrutura do
telhado.
O templo também não tinha laudo dos Bombeiros, diz o
coronel Manuel Antonio da Silva Araújo. O último foi
feito em 2003 e precisaria ser renovado a cada dois
anos. O laudo atesta a segurança do prédio em relação a
rotas de fuga e equipamentos de combate a incêndio.
O Ministério Público Estadual vai analisar os documentos
usados pela igreja para obter o alvará, inclusive o
laudo do engenheiro que atestou a segurança da obra. O
Crea-SP (conselho regional de engenharia) também apura a
responsabilidade técnica pelo acidente.
Para o promotor Ricardo Andreucci (Criminal), a tragédia
poderia ter sido evitada se a prefeitura tivesse feito
uma rigorosa vistoria no prédio antes de liberar seu
funcionamento --o alvará, válido por um ano, foi
renovado em julho de 2008.
O secretário de Habitação disse que não foi feita
vistoria e que a prefeitura confiou no laudo técnico. No
fim da tarde, a secretaria mudou a versão e informou que
foi, sim, feita uma vistoria. A Folha pediu, mas não
teve acesso ao processo.
O presidente do Instituto de Engenharia, Edemar de Souza
Amorim, disse que trocar uma telha por outra do mesmo
peso não traz problemas se não houver mudança na
estrutura. "Aposto dez contra um que é um problema de
manutenção, falta de o proprietário contratar engenheiro
para fazer uma vistoria regular."
Outro lado
A Igreja Renascer em Cristo informou ontem que a
documentação do imóvel no Cambuci, onde funciona a sede
mundial da entidade, estava "absolutamente legalizada".
"A Renascer em Cristo sabe da responsabilidade e
importância da manutenção dos locais de culto, onde se
reúnem milhares de fiéis, entre eles idosos e crianças.
A manutenção preventiva, inclusive, sempre foi uma
preocupação constante. Não se sabe o que ocorreu, e
apenas uma investigação séria e rigorosa poderá fornecer
a resposta", informou ontem a igreja por meio de nota.
Sobre a reforma do telhado que precisaria ter sido
informada à prefeitura, a igreja respondeu apenas que
foi uma manutenção necessária. O templo não chegou a ser
fechado.
"Em 2008 a empresa Etersul foi contratada para realizar
toda a troca de telhas, e cuidando de todos os aspectos
relacionados a esse trabalho, parte burocrática e
administrativa, incluindo sua regulamentação. Essa obra
da Etersul durou 70 dias", informou a igreja.
A empresa informou que foi contratada apenas para trocar
as telhas do prédio.
A Renascer defende que a estrutura do prédio era
adequada, pois em 1999 o IPT emitiu laudo em que atesta
a qualidade da reforma feita no telhado.
"A última grande reforma no telhado [...] ocorreu em
1999. Todas as precauções foram tomadas para que o
trabalho não apresentasse qualquer falha: uma equipe de
engenheiros de primeira linha fez o projeto e cuidou da
obra, sob a supervisão do internacionalmente reconhecido
IPT."
O IPT confirmou que fez o laudo, concluído em 2000, com
um conjunto de recomendações a serem seguidas para a
manutenção da segurança do prédio. Desde então, não teve
mais acesso ao templo.
Sobre os relatos de que parte do teto caiu na semana
passada, para a igreja é "uma afirmação que beira o
absurdo". "Para se ter uma ideia, os netos do apóstolo
Estevam e da bispa Sônia [Hernandes, fundadores da
igreja] estariam no culto neste domingo. Os filhos do
bispo Gê [Geraldo Tenuta Filho], bispo primaz e
presidente da igreja, estavam no culto. Ninguém faria
isso de sã consciência, se soubesse que havia riscos."
A igreja pediu que "não sejam levantadas teses absurdas"
e que "especulações são inadmissíveis nesse momento".
Com LUIS KAWAGUTI, EVANDRO SPINELLI, CONRADO CORSALETTE,
ROGÉRIO PAGNAN e ADRIANA FERRAZ