Cientistas comemoram testes com células-tronco em
humanos nos EUA
O Governo dos Estados Unidos autorizou hoje o primeiro
teste em humanos de um tratamento com células-tronco
para as lesões da medula espinhal, decisão que foi
qualificada por cientistas como um "marco importante".
Já outros consideraram que a decisão da Administração de
Alimentos e Medicamentos (FDA, em inglês) responde mais
a motivos políticos do que a razões científicas.
A empresa Geron Corporation anunciou hoje que iniciará,
provavelmente na metade do ano, os primeiros testes para
comprovar se a injeção de células-tronco embrionárias
nas áreas lesionadas da medula espinhal de cerca de dez
pacientes causa danos ou reações adversas.
"Quando alguém sofre uma lesão completa da medula
espinhal, não há esperanças de recuperação abaixo do
ponto onde ocorreu a lesão", afirmou o presidente da
Geron, Thomas Okarma.
O teste "é significativo, porque será o primeiro teste
clínico de um produto obtido de células-tronco de
embriões", acrescentou.
Entre oito e dez pacientes que tenham sofrido lesão na
medula espinhal no máximo 14 dias antes do início do
tratamento receberão injeções de células-tronco no ponto
do ferimento.
Os pesquisadores observarão esses pacientes durante um
ano, primeiro para detectar possíveis reações adversas,
e depois para determinar se há alguma recuperação das
funções da medula.
Por sua vez, Sean Morrison, diretor do Centro para
Biologia de Células-Tronco da Universidad de Michigan,
qualificou a autorização do teste como "um marco
importante".
"Este será o primeiro uso de células derivadas de
células-tronco embrionárias em pacientes", acrescentou.
"Se o transplante destas células nos pacientes não for
prejudicial, abrirá um precedente importante que
facilitará todos os testes clínicos que envolvam
células-tronco derivadas de embriões".
No entanto, Kevin Fitzgerald, professor da Divisão de
Bioquímica e Farmacologia na Universidade Georgetown e
membro do Centro para Bioética Clínica, minimizou o
alcance do teste.
"O objetivo primário deste teste será, somente,
determinar se a injeção nos pacientes não causa danos
neles", disse à Agência Efe Fitzgerald, que também é
sacerdote católico.
"E, à medida que outros testes com células-tronco
obtidas de adulto já estão avançados, isso também não é
uma inovação extraordinária", acrescentou.
A pesquisa de células-tronco e o desenvolvimento de
tratamentos que aproveitem as qualidades para a geração
de todo tipo de tecidos no corpo humano estiveram
imersas em um debate político, religioso e ideológico
nos Estados Unidos durante anos.
Em agosto de 2001, o ex-presidente George W. Bush
proibiu o uso de recursos federais para a investigação
com células-tronco, exceto com os exemplares já obtidos
de embriões em clínicas de fertilidade que, de outra
maneira, teriam sido descartados.
Os cientistas, que veem nas células-tronco grandes
promessas para o tratamento de doenças como parkinson,
alzheimer e diabetes, creem que as mais eficazes são as
obtidas de embriões nas primeiras fases da gravidez.
Aqueles que, por razões religiosas ou morais, se opõem
ao aborto e ainda à fertilização artificial de humanos,
rejeitam a "coleta de células-tronco" embrionárias de
humanos.
"Os tratamentos com células-tronco derivadas de embriões
poderiam melhorar o tratamento de muitas doenças",
afirmou Morrison. "Mas os pacientes não deveriam esperar
avanços imediatos. O caminho para as novas curas é longo
e difícil".
Da mesma forma que Fitzgerald, Morrison lembrou que o
transplante de medula espinhal, um tratamento com
células-tronco de adultos, é atualmente a forma padrão
de tratar de muitas doenças do sangue.
Fitzgerald acrescentou que o objetivo principal do teste
da empresa Geron é que, "mais que obter um resultado
científico, querem mostrar que as células-tronco de
embriões funcionam".
"Se antes houve críticas porque a política interferia no
trabalho científico, agora parece que ocorre o mesmo",
destacou. "A meta final do tratamento regenerativo é que
o corpo se cure por si mesmo.
Aqui, a meta é criar um produto que seja vendido ao
público".