Entenda os pontos polêmicos da nova Constituição da
Bolívia
Projeções indicam que os eleitores na Bolívia aprovaram
em um referendo a proposta de uma nova Constituição do
país.
O presidente boliviano, Evo Morales, comemorou o
resultado da votação, afirmando que a nova Carta Magna
garante que os recursos naturais do país serão "do povo,
e nenhum governo poderá, jamais, mudar essa situação".
Os favoráveis à rejeição do projeto argumentaram durante
a campanha pelo "não" que a proposta tem passagens vagas
sobre a posse de terras e que poderia dividir a
sociedade boliviana, ao estabelecer novos direitos para
os povos indígenas.
A BBC Brasil preparou este texto para ajudar você a
entenda melhor alguns dos pontos mais polêmicos do
projeto constitucional.
Questão indígena
Mais de 80 dos 411 artigos da nova Constituição proposta
pelo governo tratam da questão indígena no país.
Pelo texto, os 36 "povos originários" (aqueles que
viviam na Bolívia antes da chegada dos europeus), passam
a ter participação ampla efetiva em todos os níveis do
poder estatal e na economia.
O documento prevê que a Bolívia passe a ter uma cota
para parlamentares oriundos de povos indígenas, que
também passarão a ter propriedade exclusiva sobre os
recursos florestais e direitos sobre a terra e os
recursos hídricos de suas comunidades.
Em um de seus pontos mais polêmicos, o texto também
estabelece a equivalência entre a justiça tradicional
indígena e a justiça ordinária do país.
Cada comunidade indígena teria seu próprio "tribunal",
com juízes eleitos entre os moradores. As decisões
destes tribunais não poderiam ser revisadas pela Justiça
comum.
Ao mesmo tempo, em épocas eleitorais, os representantes
dos povos indígenas poderiam ser eleitos a partir das
normas eleitorais de suas comunidades.
Também seria criado um Tribunal Constitucional
plurinacional, que teria membros eleitos pelo sistema
ordinário e pelo sistema indígena.
Membros da oposição argumentam que os direitos
estabelecidos para os povos indígenas dividiriam o país
ao criar duas classes distintas de cidadãos.
Terra
A questão da divisão agrária é outro ponto polêmico do
texto.
Além votarem pelo "sim" ou pelo "não" à nova
Constituição, os eleitores tiveram que decidir se
queriam que as propriedades rurais no país tenham limite
de 5.000 hectares ou dez mil hectares.
Projeções indicam que a maioria optou por restringir as
fazendas a 5.000 hectares.
Assim, aqueles que, no futuro, adquirirem uma quantidade
de terra maior do que isso, podem perder o direito sobre
a área excedente.
Depois de negociações com setores da oposição, o governo
decidiu que, no entanto, a medida não será retroativa,
ou seja, não afetará os atuais proprietários.
Mas há outro ponto que preocupa os fazendeiros
bolivianos. O novo texto estabelece que a terra tenha
uma "função social", termo considerado vago pelos
oposicionistas.
Alguns acreditam que o termo vago pode permitir que o
governo confisque terras quando bem entender.
Reeleição
O projeto ainda estabelece a possibilidade de o
presidente concorrer a dois mandatos consecutivos, o que
é proibido pela atual Constituição.
Assim, a aprovação do texto no referendo abre caminho
para que Morales convoque novas eleições e concorra
novamente ao cargo de presidente.
O texto também prevê a instituição do segundo turno em
eleições. Atualmente, quando nenhum dos candidatos
consegue atingir mais da metade dos votos, é o Congresso
quem decide quem será o novo presidente entre os dois
mais votados.
Também se estabelece a possibilidade da convocação de
referendos revogatórios de mandatos.
Divisão territorial
O texto constitucional que passou pelo referendo também
muda o mapa político da Bolívia.
Embora a atual Constituição do país já estabeleça níveis
de descentralização política, o novo texto prevê a
divisão em quatro níveis de autonomia: o departamental
(equivalente aos Estados brasileiros), o regional, o
municipal e o indígena.
Pelo projeto, cada uma dessas regiões autônomas poderia
promover eleições diretas de seus governantes e
administrar seus recursos econômicos.
A oposição alega que isto dividiria o país em 36
territórios e diminuiria as autonomias dos Departamentos
(Estados).
No ano passado, quando o país esteve à beira de uma
guerra civil, os principais líderes da oposição a
Morales eram os prefeitos (governadores) dos
Departamentos de Santa Cruz, Tarija, Chuquisaca, Beni e
Pando, as regiões mais ricas do país e que poderiam ter
seu poder diminuído.
Recursos naturais
Pelo projeto constitucional, os recursos naturais passam
a ser "propriedade" dos bolivianos e não mais do Estado,
como diz a Constituição atual.
Segundo o artigo 349 do projeto, "caberá ao Estado
administrar (os recursos naturais) em função do
interesse público".
O texto também estabelece que recursos como o gás não
podem ser privatizados e que recursos energéticos só
podem ser explorados pelo Estado.
Recursos hídricos também não poderão ser privatizados e
está inclusive proibida a sua exploração por meio de
concessão.
Coca
O cultivo da coca, vegetal comum na Bolívia e que pode
ser usado para a produção de cocaína, recebe proteção
especial no novo projeto constitucional.
O texto diz "que o Estado protege a coca originária e
ancestral como patrimônio cultural, recurso natural
renovável e fator de coesão social".
O projeto também estabelece que a produção,
comercialização e industrialização da folha de coca
serão regidas por lei.
Política externa
A Bolívia perdeu sua única saída para o mar após a
chamada Guerra do Pacífico (1879-84), quando, ao lado do
Peru, lutou contra o Chile.
O novo projeto constitucional, no entanto, estabelece "o
direito irrenunciável e imprescritível sobre o
território de acesso ao Oceano Pacífico", o que pode
causar desavenças com o país vizinho.
Além disso, o texto estabelece que tratados
internacionais sobre temas sensíveis sejam submetidos a
referendo e proíbe a instalação de bases militares
estrangeiras em seu território.
Religião
O projeto constitucional do governo Morales estabelece
que o Estado seja laico e destitui o catolicismo da
condição de religião oficial da Bolívia.
Mas outros artigos também preocupam a igreja e os
católicos do país.
A proposta de Constituição estabelece o "direito à
vida", mas sem especificar se ele tem início desde o
momento da concepção, o que, para os católicos, pode
abrir uma porta para a aprovação do aborto no país.
O texto também fala em "direitos sexuais e
reprodutivos", mas sem especificar a que se referem.
Isto, junto com uma definição ambígua de "família",
pode, segundo os católicos, abrir caminho para o
casamento entre homossexuais.