Maior hospital de Natal está no limite do "colapso",
segundo diretor Paulo Francisco
Especial para o UOL Notícias
de Natal (RN)
O maior hospital público de Natal (RN), o Walfredo
Gurgel, que recebe doentes de todo o Rio Grande do
Norte, não tem mais onde alojar seus pacientes depois de
quase um mês da crise da saúde.
Corredor lotado do hospital Walfredo Gurgel, o maior de
Natal.
Hospital privado conveniado ao SUS operou idosas que
esperavam por um mês por cirurgia, após publicação de
reportagem do UOL.

Até os corredores do hospital, do governo do Estado,
viraram enfermarias para receber os pacientes,
principalmente as vítimas de acidentes de trânsitos e da
violência urbana, muitos dos quais precisam de cirurgias
eletivas com urgências sob pena de ficarem com sequelas.
"Aqui está parecendo a Faixa de Gaza", disse o
neurocirurgião José Luciano de Araujo, que tem 37 anos
de medicina e há 20 anos atende nessa unidade
hospitalar.
"Nunca enfrentei uma situação como essa, onde a gente
não podia nem andar, de tantas macas no chão", disse o
médico, que trabalha em regime de sobreaviso, relatando
como foi o último final de semana no maior hospital da
capital.
Segundo ele, no Corredor do Centro Cirúrgico (CRO), uma
ala para receber os pacientes após as cirurgias, com
capacidade para dez leitos, está com um excesso de 26
pacientes. "Não tem mais onde colocar os pacientes,
todas as macas estão ocupadas. Eu queria que a
governadora e as promotoras viessem aqui ver a situação.
O Walfredo Gurgel vai explodir", afirmou o médico.
O diretor do hospital, José Renato Machado, admite que a
situação está no limite do "colapso", mas não coloca a
culpa apenas na crise da saúde que Natal enfrenta desde
o dia 1º. Em janeiro desse ano, quando a secretaria de
Saúde do Estado não renovou os contratos com as
cooperativas médicas que atendiam na rede hospitalar
pública e privada.
"Nesse último fim de semana, tivemos uma demanda muito
maior de cirurgias, principalmente de vítimas de
acidentes de trânsito, o que levou o hospital a sofrer
essa situação", explicou Machado, minimizando as
declarações do neurocirurgião.
Segundo o diretor, o hospital tem 259 leitos, mas diante
da demanda desses últimos dias está sendo obrigado a
colocar os doentes e operados em macas espalhadas pelos
corredores. "Temos 360 pacientes internados e faltam
leitos para atender a essa demanda de doentes que estão
vindo para cá diariamente. No último fim de semana,
realizamos cerca de 50 cirurgias de urgências e não está
havendo a transferência desse pacientes para os outros
hospitais conveniados do SUS", disse ontem (27/1) o
diretor.
Antes da crise, outros três hospitais particulares
conveniados em Natal, o Itorn, o Memorial e o Médico
Cirúrgico, atendiam aos pacientes que necessitavam de
cirurgias ortopédicas. Mas com a não-renovação dos
contratos das cooperativas médicas, cerca de 500 médicos
filiados a elas, incluindo os anestesistas, deixaram de
atender nesses hospitais, sobrecarregando o hospital
Walfredo Gurgel, que realiza cerca de 700 cirurgias de
traumas por mês.
Um cirurgião bucomaxilofacial, que prefere não se
identificar, afirma que a situação do hospital Walfredo
Gurgel, com macas nos corredores, é "corriqueira" e se
agravou por dois motivos, "a violência urbana aumentou
nos últimos anos e o sucateamento da rede básica de
saúde de Natal, que não atende os doentes ainda nos seus
bairros de origens, levando-os a procurar o hospital
Walfredo Gurgel."
O cirurgião afirma que a situação de macas nos
corredores só vai acabar quando a atenção básica de
saúde no município chegar à população e quando um novo
complexo hospitalar for construído para atender as
urgências e emergências da cidade. "Natal dobrou o seu
número de habitantes nos últimos 20 anos e continua com
a mesma estrutura hospitalar", afirmou o cirurgião.