Mudança climática vai minar combate à pobreza, diz
relatório da ONU
DANIEL GALLAS
Brasil, de Londres
O Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD (Programa
das Nações Unidas), divulgado nesta terça-feira em
Brasília, afirma que as mudanças climáticas "vão minar
os esforços feitos pela comunidade internacional para
combater a pobreza".
A edição deste ano do relatório do PNUD destacou o
impacto das mudanças climáticas no desenvolvimento
humano e nas Metas do Milênio --conjunto de objetivos
comuns estabelecidos por líderes mundiais para ser
alcançado até 2015.
"As mudanças climáticas estão prejudicando os esforços
para se cumprir a promessa das Metas do Milênio", afirma
o texto do PNUD. "Olhando para o futuro, o perigo é que
as mudanças climáticas irão interromper e depois
reverter o progresso construído através de gerações, não
só na redução da pobreza, mas em saúde, nutrição,
educação e outras áreas."
Segundo o PNUD, o fracasso no combate às mudanças
climáticas vai diminuir as oportunidades de 2,6 bilhões
de pessoas --ou 40% da população mundial.
"Cidades como Londres e Los Angeles podem enfrentar
enchentes com o aumento do nível do mar [causado pelo
aquecimento global], mas seus moradores estão protegidos
por sistemas avançados de defesa de enchentes", diz o
texto.
"Em contraste, quando o aquecimento global mudar os
padrões de temperatura no Cabo da África, (isso)
significará que colheitas fracassarão e pessoas terão
que enfrentar a fome ou que mulheres e jovens passarão
mais tempo transportando água."
"Sejam quais forem os riscos para as cidades do mundo
rico, hoje as verdadeiras vulnerabilidades das mudanças
climáticas relacionadas a tempestades e enchentes estão
nas comunidades rurais nos deltas dos grandes rios, como
o Ganges, o Mekong e o Nilo, e em favelas urbanas
espalhadas pelo mundo em desenvolvimento."
O relatório afirma ainda que se nada for feito para
conter as emissões de gases nocivos ao ambiente, a
temperatura média do mundo pode subir 5º C até o fim do
século. Se houver ação coordenada, o impacto poderia ser
reduzido para 2º C. Os números são parecidos com os
apresentados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas da ONU, que trabalha com um aumento de 1,8ºC
a 4ºC até 2100.
O relatório recomenda que os países do mundo comecem a
trabalhar em acordos para substituir o Tratado de Kyoto,
sobre emissões de CO2 (dióxido de carbono), que expira
em 2012.
O PNUD é a agência da ONU para promover o
desenvolvimento humano. Todo ano, o relatório analisa em
profundidade algum tema de desenvolvimento humano, como
saneamento, educação ou, como foi neste ano, o impacto
do clima.
Além disso, o documento traz um ranking mundial que
classifica os países em diferentes categorias de
desenvolvimento. Neste ano, pela primeira vez, o Brasil
aparece entre os países de "alto desenvolvimento humano"
no ranking do relatório.