Aquecimento pode ter trazido águas-vivas ao Brasil
O grande número de caravelas - uma espécie parente da
água-viva - registrado recentemente do sul ao nordeste
do litoral brasileiro pode estar relacionado ao
aquecimento global, segundo o biólogo e professor do
Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo
(USP) Vicente Gomes. O fenômeno tem ocasionado centenas
de queimaduras em banhistas em todo o litoral,
sobretretudo nas regiões Sul e Sudeste.
"O aquecimento das águas marinhas e o derretimento das
calotas polares decorrentes das mudanças climáticas
mudam as correntes e podem ter feito com que a
incidência destes animais, normalmente mais rara, tenha
aumentado na costa brasileira", afirma.
Segundo ele, diferente das águas-vivas, que nadam, as
caravelas são levadas passivamente pelas correntes
marinhas. Outra diferença é o tamanho dos tentáculos e o
maior potencial venenoso de sua toxina. "A da caravela é
mais intensa, causa mais dor e demora mais a sarar que a
da água-viva."
Urina
O professor titular do Instituto de Biociências da USP e
especialista em substâncias orgânicas venenosas José
Carlos de Freitas defende uma solução caseira em caso de
ataque: "o tratamento inicial é urinar em cima da
queimadura ou pedir a alguém que o faça", garante.
Segundo Freitas, um estudo feito por ele recentemente
comprova que a urina humana possui propriedades
anti-inflamatórias que ajudam a anular o efeito tóxico
do veneno da caravela.
Freitas conta que já foi atacado há alguns anos atrás e
usou este artifício para aliviar a ardência. "Eu mesmo
urinei em cima da minha queimadura", conta.
Mas ele adverte que esta é uma medida apenas paliativa e
não uma garantia de que o sofrimento acabe de imediato.
"A verdade é que não há muito o que fazer, o corpo é que
reage contra a intoxicação com o tempo."
O tempo para que a pele se regenere pode chegar a 24
horas, mas, com tratamento médico adequado, pode sarar
bem antes, segundo o professor. O veneno seria fatal
apenas a quem é alérgico a ele, provocando o choque
anafilático.
Ele descreve as toxinas liberadas no ataque das medusas
como proteínas com baixo peso molecular semelhantes à
peçonha de uma cobra. As proteínas são descarregadas por
estruturas como agulhas liberadas pelo animal, que
injetam o veneno na pele. O efeito causa o que se chama
na medicina de necrose: as células da pele se degeneram
e morrem progressivamente.
Contraponto
O médico dermatologista Alysson Doi, que atende no
Instituto de Queimados do Hospital de Clínicas afirma
que, em casos extremos, é preciso inclusive transplantar
pele de outras partes do corpo para enxertar no local
atingido. Ele não aprova a solução caseira de Freitas.
"Urinar em cima é uma solução antiquada, causa infecções
posteriormente", explica.
Segundo ele, o tratamento ideal nos primeiros socorros é
água do mar, cobrir com areia ou pano umedecido com água
do mar, tomar um analgésico se a dor é intensa e se
encaminhar rapidamente a uma unidade de atendimento
médico. E, caso tenha havido o contato da queimadura com
urina, lavar poucos minutos após com uma solução
adequada.