Enciclopédia traz todos os seres vivos do planeta
Carl Zimmer
Imagine o "Livro de Todas as Espécies", um volume único
composto de descrições de página única sobre todas as
espécies conhecidas pela ciência. Em uma página estaria
o mergulhão de pés azuis. Na outra, o pinheiro Douglas.
Em outra, o cogumelo ostra. Caso você tivesse um
exemplar do "Livro de Todas as Espécies", seria
necessária uma estante considerável para guardá-lo.
Apenas para abarcar o 1,8 milhão de espécies conhecidas,
o livro teria de ter comprimento de cerca de 100 metros.
E o leitor teria de estar disposto a manter a estante em
expansão permanente, porque os cientistas estimam que
existam 10 vezes mais espécies à espera de descoberta.
Parece surreal, mas há cientistas escrevendo o "Livro de
Todas as Espécies". Ou, para ser exato, eles estão
criando realizando a mesma tarefa por meio de um site na
web chamado "Encyclopedia of Life" (www.eol.org). Na
quinta-feira, a equipe internacional de cientistas que
comanda o projeto apresentou as primeiras 30 mil
páginas, e dentro de uma década a previsão é que a
dimensão total chegue ao 1,77 milhão de páginas.
Embora muitas dessas páginas devam parecer inicialmente
esparsas, os autores esperam que a comunidade científica
mundial agregue conhecimentos a elas. "A enciclopédia
conterá tudo que existe de conhecido, e tudo que surgir
de novo será acrescentado, com o tempo", disse Edward
Wilson, o biólogo da Universidade Harvard que
impulsionou a criação do projeto e hoje é seu presidente
de honra.
Outros especialistas, não envolvidos no projeto, o
elogiam como imensamente promissor. "Certamente acredito
que seja uma grande idéia", disse Jody Hey, biólogo da
Universidade Rutgers.
Mas diversos pesquisadores duvidam que o projeto seja
capaz de atingir seu objetivo último. A enciclopédia não
representa a primeira tentativa de catalogar todas as
espécies que existem no planeta, e todos os esforços
anteriores fracassaram. "Vi 20 anos de boas idéias que
chegaram a lugar algum", disse Daniel Brooks, biólogo da
Universidade de Toronto.
Wilson esteve envolvido em algumas dessas tentativas
fracassadas. Mas nos últimos anos, diversos avanços na
tecnologia de bancos de dados tornaram o objetivo mais
realista. Hoje, os biólogos são capazes de consultar
bancos de dados que abrigam seqüências de DNA de
centenas de milhares de espécies, por exemplo.
Também existem bancos de dados mais detalhados sobre
grupos de espécies, como os mamíferos, fungos e
parasitas. Em 2003, Wilson escreveu um estudo no qual
solicitava que toda essa informação estivesse disponível
em um mesmo lugar.
Ele e seus colegas em seguida persuadiram a John D. and
Catharine T. MacArthur Foundation a contribuir com
verbas para que um consórcio de universidades, museus e
instituições científicas organizassem o projeto. A
Fundação Alfred P. Sloan e alguns de seus parceiros
estão contribuindo, igualmente. A enciclopédia terá
orçamento de cerca de US$ 50 milhões para seus cinco
primeiros anos de operação.
Quando Wilson e seus colegas anunciaram o início da
Encyclopedia of Life, em maio passado, o site era pouco
mais que algumas páginas-modelo. Por trás das cenas,
cientistas do Laboratório de Biologia Marinha de Woods
Hole, Massachusetts, estavam ocupados construindo um
sistema para colocar informação científica online
rapidamente.
"Se nos sentássemos diante de um computador e
começássemos a escrever do zero, preparar a enciclopédia
seria virtualmente impossível", disse James Edwards, o
diretor executivo do projeto.
Os designers criaram um software capaz de extrair
informação automaticamente - mapas, seqüências de DNA,
sons de pássaros, fotografias, árvores evolutivas, etc.
- de diversas fontes, e organizá-las em um único lugar,
sob um formato padronizado.
Dez das maiores bibliotecas de história natural do mundo
estão escaneando milhões de páginas de literatura
científica, e os textos que elas contêm estão sendo
vasculhados por programas de computador, em busca de
informações para acrescer às páginas.
"O desenvolvimento atual do projeto me espantou", disse
Wilson. "Pensei que nós discutiríamos por muito mais
tempo, e que teríamos de nos esforçar para promover a
idéia".
A versão lançada na quinta-feira não fica nem perto do
que será o produto final, alertou Edwards. "Será um
primeiro rascunho", disse. "O lançamento foi antecipado
para que descubramos como as pessoas reagem ao produto".
As 30 mil espécies da primeira versão virão
primordialmente de bancos de dados sobre peixes,
anfíbios e plantas.
Especialistas também criaram 24 "páginas de exemplos"
detalhadas, para demonstrar o volume de informação que a
enciclopédia pode oferecer. Elas incluem espécies muito
estudadas como mosquito da febre amarela, o pinheiro
branco e o cogumelo Amanita phalloides.
Os pesquisadores querem garantir que o site seja útil
para cientistas e não cientistas igualmente, de modo que
criaram uma barra deslizante que permite que os leitores
escolham o nível de detalhe desejado. Também estão
desenvolvendo maneiras de manipular a informação de modo
a torná-la útil de diversas maneiras.
"O usuário poderá baixar um guia de campo
personalizado", disse Edwards. "Ele pode procurar dados
sobre uma reserva natural que planeja visitar na
Tailândia".
Os cientistas, enquanto isso, poderão usar a "Encyclopedia
of Life" para conduzir pesquisas originais. Um grupo de
pesquisadores já planeja comparar como diferentes
espécies envelhecem, a fim de compreender a biologia do
envelhecimento.
The New York Times