SP: cadela adota filhote de jaguatirica no interior
Chico Siqueira
Direto de Lucélia
Uma cadela adotou um filhote de jaguatirica, encontrado
na última quinta-feira, no canavial da fazenda Aroeira
do Salto, no município de Lucélia, 586 km de São Paulo.
Chico Siqueira/Especial para o Terra

A cadela, chamada de Holly, adotou o pequeno animal e
passou a amamentá-lo
A cadela de um ano, chamada de Holly, adotou o
pequeno animal e passou a amamentá-lo com o leite que
deveria ir para sua primeira cria, três filhotes
nascidos mortos há 15 dias.
Não demorou para Holly se aproximar do filhote. "Foi
amor à primeira vista. Acho que ela substituiu os
cãezinhos nascidos mortos", conta Benta Alves de Souza,
42 anos, mulher do encarregado da fazenda. Ela passou a
chamar a jaguatirica de Nina, apelido que mudou para
Nino, depois que descobriu ser um macho.
"Já no primeiro dia, Nino passou a mamar na Holly",
conta Benta. "Essa oncinha é tudo na vida dela. Agora
ela está mais alegre, mais calma e brincalhona", emenda
o marido Arnaldo de Souza, 38 anos, que encontrou o
exemplar. Não é para menos, Holy fecha os olhos enquanto
Nino mama em suas tetas e luta para ficar agarrado à
barriga da cadela. Vez ou outra, Holly lambe Nino que,
depois de mamar, se deita debaixo do pescoço da cadela,
que volta a adormecer.
"Eu estava levando óleo para a colheitadeira e quando
percebi, de cima do trator, esse bichinho estava ali, no
pé do canavial", contou Arnaldo. "Fiquei com medo;
primeiro olhei se a mãe não estava por perto, depois o
peguei e o trouxe para casa. Afinal, se eu o deixasse
ali, certamente ele iria morrer".
Mas Holly está ficando sem leite, por isso, Benta
decidiu amamentar a oncinha com leite de vaca. "É só um
suplemento", ela avisa. Mas nem mesmo assim, Holly dá
sossego. Enquanto Benta dá de mamar para Nino, a cadela
fica ao lado; observa e tenta lamber o filhote adotado.
Segundo Arnaldo, o casal deverá fazer um contato nesta
terça-feira com um zoológico ou Polícia Ambiental para
entregar o filhote de Jaguatirica, mas, preocupado com a
possível volta da solidão de Holly, encomendou dois
filhotes de cachorrinhos para quando Nino for embora.
"Vai amenizar a tristeza dela", contam Benta e Arnaldo.
"Acho que esse filhote ficou porque a mãe devia estar
para parir e não teve tempo. Deve ter levado alguns
filhotes e este se perdeu, ou a mãe não teve tempo de
vir buscá-lo", disse. "Até pensei em deixá-lo lá por
algum tempo, lá no canavial, e me esconder, mas tive
medo dele não agüentar e morrer".
O casal mora na fazenda há cinco anos e nunca viu
nenhuma onça, mas Arnaldo diz ser comum encontrar
rastros de felinos. "Eles não atacam as criações porque
há muitas capivaras, porcos do mato, catetos e Javalis
por aqui", conta.
A fazenda onde o filhote foi encontrado fica próxima às
matas ciliares do rio Aguapeí e ao parque estadual do
mesmo nome, no extremo Noroeste de São Paulo. Criado em
1998, o parque é uma reserva de florestas de transição
de Cerrado e Mata Atlântica e possui vegetação
semelhante ao do Pantanal mato-grossense, sendo chamado
por isso de Pantanal Paulista.
A região, que é um dos últimos habitats de diversas
espécies de animais no interior de São Paulo, como onças
pintadas, é também é o único habitat no estado onde o
cervo do pantanal, que está em extinção, vive à solta.
Mas a expansão das plantações de cana e das criações de
gado ameaça o santuário, que também enfrenta os ataques
dos caçadores e dos traficantes de animais silvestres.
Redação Terra