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Quebra de
habitat reduz número de anfíbios na mata
atlântica
A vida não está fácil para sapos, rãs e
pererecas que vivem no interior de São Paulo
nos remanescentes da mata atlântica. Acuados
em pequenos trechos de floresta distantes de
rios e lagos, os adultos precisam atravessar
centenas de metros em meio a fazendas até
alcançarem um local onde possam colocar seus
ovos. Depois têm de fazer todo o caminho de
volta. Na corrida de obstáculos, com o Sol
lhes torrando a pele, precisam enfrentar
pisadas de bois, predadores e agrotóxicos.

A chamada "desconexão de habitats" está
sendo considerada por biólogos brasileiros
como uma das principais causas do declínio
de anfíbios. Acostumados a viverem em
florestas com acesso fácil à água para o
período de desova e nascimento dos filhotes,
eles não estão lidando bem com as
intervenções do homem que acabaram dividindo
seu habitat.
Em artigo na revista "Science",
pesquisadores de várias instituições
brasileiras avaliam essa fragmentação na
mata atlântica --onde 93% da floresta
natural foi devastada--, mas alertam que o
problema pode estar ocorrendo em todo o
mundo por conta da destruição de matas
ciliares (vegetação na margem de rios e
lagoas).

No interior de São Paulo, além de boa parte
dos trechos remanescentes da mata atlântica
estarem separados das fontes de água por
canaviais ou pastos, 76% da mata ciliar foi
destruída.
"É muito comum vermos regiões que têm só uma
matinha em cima do morro e lá embaixo fica o
rio. No meio do caminho fica um ambiente
inóspito que os sapos têm de atravessar. Às
vezes são 500 metros... Para a gente é
fácil, mas para um sapinho de dois
centímetros, não", conta Carlos Roberto
Fonseca, da Unisinos (Universidade do Vale
do Rio dos Sinos), um dos autores do estudo.
Comparando fragmentos de mata com e sem
riachos, os pesquisadores observaram que
ocorre uma queda, nos últimos, de cerca de
50% no número de espécies e de indivíduos.
De acordo com Fonseca, áreas de 15 km com
mata ciliar preservada apresentam em média
15 espécies. Já os trechos do mesmo tamanho
sem a mata ciliar têm somente seis ou sete.
A presença de fontes de água é fundamental
porque 80% das espécies de anfíbios, apesar
de viverem em terra, precisam ir até um rio.
A fêmea adulta bota os ovos na água e é lá
onde os filhotes vão nascer. Por isso os
mais afetados pela desconexão de habitats
são justamente os girinos, que já nascem em
um ambiente hostil.
"Se na floresta intacta o sapinho nasce no
igarapé, sai da água e já cai na floresta,
aqui ele se depara com uma situação
completamente desconhecida", afirma Fonseca.
E agora?
"Eles nascem em um habitat que não lhes é
natural. Devem 'pensar': E agora, pra onde
eu vou?", afirma Carlos Guilherme Becker,
pesquisador da Unicamp e da Unisinos e
primeiro autor do trabalho. "Eles falham em
encontrar o fragmento e muitos acabam
voltando para o rio que, sem a mata, fica
com temperaturas mais altas, desidratando os
animais. Eles não vão para frente."
Segundo Becker, essa desconexão de habitats
tem se mostrado mais prejudicial para os
anfíbios da mata atlântica que a perda da
floresta ou sua fragmentação --até então
citadas como as principais causas dos
declínios. "Acreditamos que este seja um dos
principais motivos de diminuição no mundo
inteiro. Contudo, só pesquisas posteriores
poderão avaliar."
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