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Sem-terra devastam área de 150 mil hectares
no Pará
FÁBIO GUIBU
em Tailândia
A omissão do poder público nas decisões que
envolvem as invasões de terra em Tailândia
(a 218 km de Belém) permitiu que os
sem-terra devastassem cerca de 150 mil
hectares em 18 acampamentos abertos em áreas
de floresta nativa, segundo estimativa do
Sindicato dos Trabalhadores Rurais local.
Cada hectare corresponde a 10 mil metros
quadrados.

Algumas áreas foram tomadas por invasores há
19 anos e até hoje não há uma decisão sobre
os pedidos de desapropriação. Sem
fiscalização, as glebas foram desmatadas, e
a madeira, vendida a intermediários.
Em vários acampamentos, os sem-terra, que
não têm acesso aos créditos oficiais
concedidos aos assentados, ergueram pequenas
carvoarias para aumentar a renda.
"O governo não faz a reforma agrária, e o
pessoal não consegue financiamento. A demora
fomenta o desmatamento", disse o presidente
do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
Tailândia, José Valdir Hoss.
No mais antigo acampamento do município, o
Pindorama, 48 famílias dividem uma área de
3.453 hectares, a 24 quilômetros da cidade.
Em 19 anos, a floresta que existia no local
se transformou em terra arrasada.
Troncos calcinados e tocos de árvores
cortadas estão por toda a parte. Há também
pequenas plantações de mandioca, milho,
arroz e feijão, além de gado. Na ausência do
poder público, os sem-terra implantaram no
local a sua própria política de reforma
agrária.
No "centro" do acampamento, há casas, bares,
uma associação e uma escola municipal. Parte
da vila tem energia elétrica. A maioria dos
trabalhadores que hoje moram no local
comprou as glebas de colonos que se tornaram
grileiros.
Poucos são os remanescentes da invasão de
1989. Um deles é José Campelo da Silva, 61.
Ele tomou a área quando ainda não havia ao
menos uma estrada de acesso à região.
Silva cercou cem hectares e, em dez anos,
transformou quase tudo em pasto. Só oito
hectares são usados para a lavoura. "Na
época, não sabia de Ibama nem de lei sobre
floresta. Ninguém dizia quanto podia cortar
nem que era proibido", disse.
"Quando a gente soube, já estava derrubado,
não tinha mais jeito", disse o agricultor.
"A lei sempre chega depois do acontecido",
afirmou. "E o pior é que agora eu sinto a
falta da sombra de árvore, da natureza."
Desde fevereiro, Tailândia é alvo de uma
fiscalização nas madeireiras e carvoarias,
suspeitas de envolvimento na extração e
venda de madeira ilegal. Ontem, as forças
federais que atuam na operação Arco de Fogo
destruíram mais 107 fornos de carvão
encontrados em sete fazendas do município.
A Folha tentou entrevistar o superintendente
do Incra no Pará, José Cristiano Martins
Nunes, mas foi informada que ele estava em
viagem e não poderia falar ontem. A
reportagem tentou contato também com as
assessorias do imprensa do órgão em Belém e
em Brasília, mas não foi atendida.
Colaborou MATHEUS PICHONELLI, da Agência
Folha
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