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"Bioma pobre", caatinga já perdeu 59% de sua área
EDUARDO GERAQUE
A caatinga entrou definitivamente na corrida para definir que bioma brasileiro
vai conseguir igualar primeiro o índice de destruição já alcançado pela mata
atlântica, que é de 93%. Tabulação de dados recente feita por uma equipe de
pesquisadores nordestinos revela que 59% do bioma tão exaltado por Euclides da
Cunha e outros escritores já está alterado.
A floresta amazônica, por exemplo, cada vez mais o destino de todos os holofotes
ambientais, apresenta 18% de sua cobertura vegetal original modificada, segundo
números divulgados nesta semana.
A compilação de dados das imagens de satélite do "primo pobre" dos biomas
brasileiros gerou dezenas de mapas. O resultado que surge é diferente das
últimas estimativas, que apontavam uma alteração de 30%, aproximadamente.
A cifra de mudança da cobertura vegetal original, calculada por Washington
Rocha, da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), também não bate com
os números oficiais com que o MMA (Ministério do Meio Ambiente) trabalha desde o
lançamento dos mapas da flora remanescente dos biomas brasileiros, no final de
2006. Para o governo, só 37% dessa formação nordestina foram devastados.
"Nós contamos apenas as áreas sem nenhuma alteração. Existem outras que já
sofreram atividades antrópicas e não sabemos até que ponto elas podem apresentar
regeneração", disse Rocha à Folha. Os dois números surgiram da análise da mesma
base de dados.
Pequenos núcleos de caatinga --alguns botânicos, como já identificaram
diferenças importantes dentro do mesmo bioma, defendem o uso do termo
"caatingas", no plural-- foram excluídos da conta.
Um mito que cai
Pelo menos nos últimos cinco anos, como lembra Rocha, todos os estudos apontam
para o mesmo caminho. A biodiversidade da caatinga, já chamada de "paraíso" por
Euclides da Cunha, é bastante elevada.
Apenas dentro do grupo dos mamíferos, mostra um levantamento feito pelo Museu
Nacional do Rio de Janeiro, existem no bioma 143 espécies. Desse total, 19 são
exclusivas do semi-árido do Brasil.
Se a preferência for por peixes ou pássaros, a caatinga também terá. São 240 e
510 espécies, respectivamente.
"A cana-de-açúcar e a desertificação [que será potencializada pelas mudanças
climáticas globais] são as duas maiores ameaças para a caatinga atualmente",
afirma Rocha.
Segundo o pesquisador de Feira de Santana, a tendência de a produção de álcool
explodir no Nordeste por causa dos biocombustíveis é uma clara ameaça para o
ecossistema.
Existem ainda áreas historicamente complicadas, lembra o biólogo José Maria
Cardoso da Silva, da ONG Conservação Internacional. "O famoso pólo gesseiro de
Pernambuco" é uma delas, diz o pesquisador. As indústrias costumam derrubar a
caatinga e usar as plantas lenhosas para alimentar os fornos onde o gesso é
produzido.
Com todas essas ameaças pairando sobre a caatinga, que agora praticamente se
igualou ao cerrado em termos de alteração antrópica, a importância das unidades
de conservação ganha muito mais peso.
Ainda mais quando menos de 2% do bioma está protegido de forma legal. Existem
áreas muito bem preservadas, como lembra Silva, --como as dunas do rio São
Francisco perto de Xique-Xique, na Bahia, e seus lagartos, que só existem lá--,
que ainda estão aguardando um parque nacional, que foi proposto, mas nunca
criado.
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