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Doença misteriosa dizima corais na Bahia
EDUARDO GERAQUE
Para um grupo de pesquisa que mergulha a trabalho em Abrolhos, no sul da Bahia,
essa atividade está sendo triste em vez de prazerosa. Após quase sete anos de um
monitoramento constante e inédito na região, eles se declaram preocupados com a
saúde dos corais-cérebro que vivem lá, nas formações dos tradicionais recifes da
região do arquipélago.
Doentes --10% da área de cobertura das colônias analisadas já sumiu em três
anos--, esses animais poderão sofrer muito mais até o fim do século se a
prevalência da doença for mantida. Se ela crescer só 1%, eles podem até
desaparecer.
"Com os níveis atuais, até 2100, 60% das colônias poderão morrer", afirmou à
Folha o pesquisador Ronaldo Francini-Filho, autor do estudo publicado na revista
científica "Marine Pollution Bulletin".
Leo Francini/Folha Imagem

Para reverter o quadro em Abrolhos, na Bahia, a forma mais segura é aumentar a
conservação do local, segundo os especialistas
Atualmente ligado à Universidade Estadual da Paraíba, ele fez o trabalho pela
Universidade Federal da Bahia. De acordo com o biólogo, em todos os 18 pontos
onde existe registro da doença, o problema surgiu a partir de 2005. "É algo
bastante recente", afirma.
Os invertebrados de Abrolhos são vitimados por diversas doenças, diz a pesquisa.
A chamada praga branca, porém, é uma preocupação especial. "A principal hipótese
de trabalho é que esta doença seja causada por bactérias."
A questão é mais complexa, entretanto, e cientistas ainda não tem certeza sobre
o que promove a disseminação dessas bactérias, que surgem com muita freqüência
no litoral baiano. "Para nós, são fortes os indícios de que se trata de uma
sinergia de fatores", diz Francini-Filho. O aumento da temperatura superficial
dos oceanos tem uma parcela de culpa. A poluição local, que é grande, também é
responsável.
Um sinal disso é que a doença segue mar adentro, atingindo pontos de 10 km a 40
km da costa, no próprio arquipélago de Abrolhos. "A poluição do continente
atinge uma distância grande", afirma o biólogo.
O quadro registrado no Brasil --em parte, por causa do aumento da temperatura
dos mares-- não é fenômeno isolado.
No Caribe, nos últimos anos, tem sido freqüente o registro de sumiço de colônias
coralinas. "Lá é mais fácil fazer uma correlação com o clima, porque existem
séries históricas maiores, de milhares de anos", diz Francini-Filho.
Segundo o biólogo, os dados caribenhos são unânimes em mostrar que o aumento da
temperatura superficial do oceano é bem mais presente nas últimas décadas.
Para reverter o quadro em Abrolhos, explicam os pesquisadores, a forma mais
segura é aumentar a conservação do local. O coral-cérebro é uma espécie
endêmica, que existe apenas no litoral do Brasil.
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