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Pecuária ameaça Pantanal, afirmam pesquisadores brasileiros
Como a Amazônia, o Pantanal já teve 17% da sua paisagem natural devastada, mas o
drama da planície alagada, assim como o de outras áreas úmidas do Brasil, é
praticamente ignorado pelos governos estaduais e federal, afirmam cientistas
reunidos em Cuiabá para discutir o futuro dessas regiões.

Segundo Walfrido Tomás, especialista em gestão da biodiversidade da Embrapa
Pantanal, a pecuária intensiva está se difundindo no Pantanal, principalmente
por meio de pessoas de fora da região, e tem desmatado muito mais do que a
tradicional pecuária pantaneira.
"A terra é barata e é óbvio que as pessoas não têm ligação cultural com a
paisagem. Elas vêm com capital e a melhor forma de (obter retorno rápido) é
desmatar", disse Tomás, em entrevista por telefone à BBC Brasil.
Segundo pesquisadores, a pecuária tradicional é mais compatível com o
ecossistema do Pantanal porque o pantaneiro vive de acordo com o ciclo das águas
da região, não desmata para plantar pasto artificial e sabe quais plantas podem
retirar do pasto natural.
"O Pantanal tem paisagens diversas: cordões arenosos, ilhas de vegetação, é todo
mesclado. Quem vem de outras culturas não sabe administrar diferentes unidades
de paisagem, precisam uniformizar, desmatam tudo", afirmou Cátia Nunes,
coordenadora do programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação da
Biodiversidade da UFMT.
Dados da Embrapa de 2004 sugerem que a pecuária intensiva é a grande responsável
pela alteração da paisagem do Pantanal. Além da pecuária, outra ameaça à região,
destaca Tomás, é a construção das hidrelétricas planejadas para o rio Paraguai.
Segundo ele, as usinas podem alterar todo o ciclo hidrológico do principal rio
do Pantanal.
Cobrança
Os dois pesquisadores estão entre os cerca de 600 pesquisadores de 30 países que
participam da 8ª Conferência Internacional de Áreas Úmidas, prevista para
terminar nesta sexta-feira.
O evento foi organizado pelo Centro de Pesquisas do Pantanal, em parceria com a
Associação Internacional de Ecologia e a Universidade Federal de Mato Grosso.
No caso do Brasil, além de falar sobre as ameaças os pesquisadores destacaram a
falta de uma definição legal e de uma política de preservação dessas áreas.
"As áreas úmidas precisam ser tratadas de forma estratégica e devem ser tratadas
pelo valor ambiental que têm. O fato de o Brasil não ter políticas públicas para
áreas úmidas é resultado da atitude que nós temos ante a essas áreas, como áreas
que ''têm mosquito''. Por isso, as pessoas geralmente drenam", disse Tomás.
De acordo com cálculos apresentados pelo pesquisador Wolfgang Junk, do Instituto
Max Plank de Liminologia, na Alemanha, pelo menos 20% da América do Sul é
coberta por áreas úmidas.
Representantes do governo do Mato Grosso, incluindo o governador Blairo Maggi,
da Agência Nacional de Águas (ANA), e do Ministério da Ciência e Tecnologia
participaram de sessões da conferência.
São consideradas áreas úmidas as que têm água de forma periódica ou sazonal. São
campos úmidos, lagoas, pequenos córregos, tudo que esteja entre água e áreas
secas e que tenha vida biológica ligada à água.
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