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Bolivianos mascam coca em La
Paz
Cerca de mil bolivianos celebraram hoje nas ruas de La Paz um dia de "acullicu"
(mascado de coca) para defender aquela que é considerada sua "folha sagrada" e
rejeitar o pedido da ONU de proibir uma prática ancestral no mundo andino.
Com o ato coletivo, cocaleiros bolivianos e membros do Governo de Evo Morales
protestaram contra o relatório da Junta Internacional de Entorpecentes (Jife,
órgão da ONU) que pede a abolição do mascado da folha de coca.
Para o Executivo, esta exigência da Jife está baseada em uma "visão ocidental" e
representa "um verdadeiro atentado" contra a cultura andina, disse hoje o
ministro de Relações Exteriores, David Choquehuanca.
A Junta, em seu relatório anual sobre drogas, pediu que Bolívia e Peru adotem
rapidamente medidas para abolir os usos de coca que contrariem a Convenção de
1961, entre eles a prática de mascá-la e usá-la na fabricação de mate.
A folha de coca, além de ser a base para produzir cocaína após um processo
químico, é um artigo tradicional na Bolívia, onde, em seu estado natural, é
empregada com usos medicinais, nutritivos e rituais.
Mascada, costume muito disseminado entre bolivianos de toda classe e condição,
funciona como um potente analgésico capaz de eliminar a sensação de fome,
cansaço, sono e certas dores.
A Jornada Nacional de "acullicu" convocada em La Paz começou com duas horas de
atraso e com uma grande manifestação liderada pelos afro-bolivianos da região de
Yungas, que desfilaram ao ritmo de sua tradicional "saya".
Entre atuações musicais e frases contra a ONU e os Estados Unidos, o ato ocorreu
em um ambiente festivo, onde mesmo alguns correspondentes estrangeiros se
atreveram a participar dos bailes tradicionais, com bastante sucesso de público.
A folha de coca foi a verdadeira protagonista da festa. Foi bastante usada e
mascada por camponeses cocaleiros, crianças e até jornalistas.
Um dos pontos altos do dia foi um ritual de oferenda à Pachamama, a deusa e
mãe-terra dos andinos, que gerou protestos entre os presentes, porque foi
realizado em idioma quíchua.
"Não entendemos, em espanhol", gritou várias vezes uma das presentes, que pouco
antes tinha exigido que o ritual fosse celebrado em aimara, a língua materna da
maioria dos participantes.
Por fim, o presidente boliviano, Evo Morales - que também é o principal
dirigente cocaleiro da Bolívia -, não compareceu ao ato, apesar de ter sido
convidado. O representante do Governo foi o vice-ministro da Coca, Gerónimo
Meneses.
"Definitivamente, a comunidade internacional deve entender que na Bolívia a coca
é considerada parte da cultura", disse Meneses em entrevista à Agência Efe.
O vice-ministro boliviano também afirmou que a "declaração da Jife é promovida
pelos Estados Unidos" e anunciou uma "campanha internacional" a favor da
industrialização da folha.
No mesmo sentido se pronunciou hoje Choquehuanca, que defendeu que a Convenção
de 1961 à qual a Jife recorre foi redigida por "europeus, brancos e homens" e
"com uma visão ocidental" que não conhece a realidade da cultura andina.
Em sua opinião, o relatório da ONU "entra em contradições" com a Declaração
Universal dos Direitos dos Povos Indígenas, de 2007.
Hernán Huanca, um dos cocaleiros que participou da jornada de "acullicu",
afirmou à Efe que a "coca em seu estado natural não é droga", mas "um meio de
sustento que alivia quando não há nutrição", principalmente na Bolívia, onde "a
comida não é suficiente".
"A cocaína veio do exterior", ressaltou Huanca, que afirmou que "antes da etapa
do colonialismo, não havia droga na Bolívia" e, no entanto, "a coca sempre foi
usada".
Coincidindo com o dia do mascado de coca realizado em La Paz, uma missão do
Governo da Bolívia apresentou hoje em Viena, perante a Comissão de Entorpecentes
da ONU, um "enérgico protesto" contra o pedido da Jife, que terminou com um
"viva a coca".
EFE
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