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No Brasil, 1968 enfraqueceu estudantes e deu
impulso à luta armada
FERNANDA BARBOSA
colaboração para a Folha Online
Em maio de 1968, o Brasil vivia a ditadura militar, instaurada em 1964 após o
golpe de Estado que destituiu o presidente João Goulart (1961-1964). Em grande
parte do mundo, a década de 60 estava "incendiada" por movimentos da
contracultura. Em 1968, o movimento estudantil marcou a França, e suas raízes se
disseminaram pela Europa. Nos Estados Unidos, a cultura negra se rebelava. Na
Tchecoslováquia, Alexander Dubcek tentava implantar um socialismo mais "humano".
Para Antônio Roberto Espinosa, doutorando em Relações Internacionais na USP e
ex-comandante das organizações armadas VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e
VAL-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares), o ano de 68 foi
"emblemático".
08.out.1968 - José Nascimento/FI

Manifestante é preso por agentes policiais no centro de São Paulo
"Em anos como esse, a Terra parece ser percorrida por uma faísca elétrica e,
espontaneamente, acontecem coisas parecidas e não combinadas em todo o planeta",
afirma.
Do ponto de vista cultural, a década de 60 era um período em que a juventude
"deixava crescer o cabelo, o tabu da virgindade já não tinha o mesmo peso e a
juventude tentava exercitar a própria liberdade", acrescenta ele, que é
professor da Fesp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
Influenciado pela "faísca global" que contaminou o mundo nos anos 60, os
movimentos estudantis também estavam efervescentes no Brasil. Segundo Espinosa,
o regime militar era "inaceitável" para os estudantes da época, que o
consideravam uma afronta à dignidade.
"Como alguém que é pago para te defender volta as armas contra você?", questiona
ele.
Estudantes
26.jun.1968 - Folha Imagem

"Passeata dos Cem Mil", organizada pela União Nacional dos Estudantes, no Rio de
Janeiro.
O movimento estudantil brasileiro começou a se reerguer em 1966 e ganhou força
após a morte do universitário Edson Luiz de Souto Lima, em 28 de março de 1968,
durante manifestação contra o aumento dos preços do restaurante Calabouço, do
Instituto Cooperativo de Ensino, no Rio de Janeiro.
Outro estudante, Benedito Frazão Dutra, morreu após ser levado ao hospital
gravemente ferido. "A morte de Edson Luis deu aos jovens uma razão concreta pela
qual lutar, já que o regime se mostrou capaz de matar estudantes", diz Espinosa.
A morte do estudante resultou na Passeata dos Cem Mil, que ocupou as ruas do Rio
de Janeiro em manifestação contra a ditadura militar.
11.out.1968 - Folha Imagem

Policiais prendem 920 estudantes durante
congresso clandestino da UNE, em Ibiúna
Em julho, o movimento operário organizou a greve da Cobrasma, em Osasco, e os
estudantes de Filosofia da USP ocuparam a faculdade, na Rua Maria Antônia. No
início de outubro, ocorreu a "Batalha da Maria Antônia", quando alunos da
Universidade Mackenzie e integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas)
invadiram o prédio de filosofia da USP. Um estudante secundarista, José Carlos
Guimarães, foi morto no confronto. Ainda em outubro, no dia 11, policiais
prenderam 920 estudantes durante congresso clandestino da UNE, em Ibiúna (SP).
Em dezembro de 1968, o regime militar decretou o Ato Institucional número cinco
(AI-5), que instituiu a censura prévia e desmobilizou o movimento estudantil. A
partir de então, a luta armada se fortaleceu e passou a ser o principal
instrumento de contestação do regime.
Maio
03.out.1968 - Folha Imagem

Protesto contra morte de estudante na "Batalha da Maria Antônia"
Em 1º de maio de 1968, ocorreu a manifestação do Dia do Trabalho, em São Paulo.
Na ocasião, os embates entre policiais ligados ao regime militar e manifestantes
só não se transformou em uma carnificina porque o governador Abreu Sodré não
ordenou a repressão.
Segundo o professor Espinosa, as comemorações foram realizadas na praça da Sé
após um acordo entre os organizadores e o governador do Estado.
No entanto, a facção mais combativa da esquerda das direções sindicais, o
Movimento Intersindical Anti-Arrocho (MIA) não aceitava comemorar o Dia do
Trabalho ao lado de Sodré e organizou uma contramanifestação, com o apoio do
sindicato de Osasco.
"A idéia era impedir o governador de falar e tentar tomar o palanque. Havia
cerca de 5.000 pessoas. Osasco chegou mais tarde, com uma caravana de mil. Todos
foram preparados para um eventual confronto com a polícia, com cartazes
segurados por porretes e cabos de aço amarrados nas cintas", relata.
Armas

Espinosa também conta que organizações armadas, como a VPR (Vanguarda Popular
Revolucionária) e a ALN (Aliança Libertadora Nacional) formaram postos de
metralhadoras no alto dos prédios que cercam a praça da Sé. "As metralhadoras
seriam utilizadas se a polícia iniciasse um confronto. Não foi preciso fazer
isso", diz ele.
Reprodução

Capitão Lamarca dá aulas de tiro no quartel de Quitaúna, em São Paulo
Mas os manifestantes não tiveram paciência de esperar a fala do governador.
"Logo quando os primeiros sindicalistas estavam falando começou o
empurra-empurra e alguém bateu no palanque com um pedaço de pau. O público
entendeu como um sinal para avançar", afirma.
Após atirar ovos contra o governador, a multidão seguiu em passeata até a praça
da República e "a manifestação adquiriu um caráter de ato contra a ditadura".
O Exército havia preparado uma força de apoio para a Polícia Militar de São
Paulo caso o governador pedisse ajuda. "Os militares chamaram o capitão Carlos
Lamarca para comandar a tropa. No caminho, Lamarca comunicou ao seu batalhão
que, se a ordem fosse bater nos manifestantes, eles adeririam à manifestação",
afirmou Espinosa.
Lamarca desertou do Exército em 1969 e se uniu à luta armada da VPR. "Se Sodré
ordenasse a repressão, ocorreria um conflito como jamais houve no Brasil, uma
carnificina".
Greve de Osasco
Folha Imagem

Os compositores Chico Buarque (à esq.) e Tom Jobim (à dir.) venceram festival no
ano de 1968
Após maio de 68, as greves de operários também começaram a se organizar, como a
de 66, em Osasco. Mas o protesto também existia em forma de música, com os
festivais que contaram com nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Jobim e
Geraldo Vandré, entre outros.
Segundo Espinosa, o movimento estudantil não tinha o poder de derrubar governos,
porque "não causava transtornos na economia. O movimento operário tinha essa
característica".
Em julho de 1968, Espinosa ajudou a organizar a ocupação da Cobrasma (Companhia
Brasileira de Material Ferroviário), uma das maiores metalúrgicas de São Paulo.
Na época, o professor tinha 21 anos, cursava o primeiro ano de filosofia na
Universidade de São Paulo (USP).
"Para nós, os organizadores, a greve configurava uma situação quase que de
insurreição. Não era. Para ser insurreição ainda faltava muito. Mas era um
processo de renovação, tanto de valores morais, como de política".
Confrontos
Após a passeata de 1º de maio, o sindicato sofreu uma intervenção na delegacia
regional do trabalho. "Nós queríamos mostrar o que faz uma oposição combativa
quando está no poder do sindicato. Tínhamos a obrigação histórica de fazer
diferente".
17.jul.1968 - Folha Imagem
Força Pública da Polícia Militar detém operários grevistas que ocupavam fábrica
da Cobrasma
Um grupo de sindicalistas organizou então a greve "como se fosse uma operação
militar". Entre 200 e 300 pessoas foram preparadas para agir. "Depois fomos
localizando pessoas dentro da fábrica para tomar os portões e os locais
estratégicos. Na véspera da greve, uma ou duas mil sabiam como a ela seria". A
intenção do sindicato era usar a demora da polícia em invadir o local para
organizar um "campo de guerra" e treinar os operários a utilizá-lo.
"A fábrica era uma arma de guerra para os funcionários que a conheciam. São
pontes rolantes por cima, esteiras por baixo, fornos de temperaturas de 2.000
graus".
Quando os operários vencessem os policiais dentro da fábrica, a idéia era
organizar uma greve geral, que atingisse Guarulhos, o ABC Paulista, o Rio de
Janeiro e Minas Gerais.
"Mas eles não seguiram o nosso ensaio e a força pública foi para a Cobrasma no
mesmo dia. Houve combate. Não como imaginávamos que deveria, mas foi até de
madrugada".
Segundo Espinosa, cerca de 400 pessoas foram presas e o controle da fábrica foi
retomado.
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