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Volta de aves raras anima aldeia nos Estados
Unidos
Susan Saulny
Os tetrazes-da-pradaria vêm voando do oeste para
os campos de Eagleville, e aterrissam em meio à
grama alta para dançar. É aqui que os mais
exibidos machos da espécie fazem barulho a fim
de atrair a atenção das fêmeas, usando uma
espécie de grasnido grave que os moradores
locais apelidaram de "boom". Em uma recente
manhã fria, porém, apenas uma fêmea parecia
interessada no espetáculo. Ela dedicou alguns
minutos de atenção aos machos e depois se foi.

O mais importante para essa pequena aldeia de
275 moradores a meio caminho entre Des Moines,
Iowa, e Kansas City, Missoury, talvez seja o
fato de que os machos atraem visitantes a
Eagleville, que como muitas outras antigas
cidades do Centro-Oeste norte-americano não
passa de uma relíquia desbotada da robusta
comunidade agrícola que chegou a ser no passado.
A cada primavera, nos últimos anos, desde que os
raros tetrazes-da-pradaria ressurgiram na cidade
depois de décadas de ausência, contrariando
todas as expectativas, a população humana local
vêm em larga medida dobrando durante quatro
semanas, com os visitantes que vêm para
acompanhar os elaborados rituais de acasalamento
dos pássaros.
Mais de 300 pessoas - ornitólogos e amadores- já
confirmaram reserva em uma turnê orientada para
ver os tetrazes este ano, e a lista de espera é
longa, diz um guia. Existem apenas cerca de 500
tetrazes-da-pradaria no Missouri. Havia mais de
15 mil, 70 anos atrás. Os especialistas
acreditam que o animal possa estar extinto,
dentro de 10 anos.
"Todas essas pequenas comunidades procuram um
nicho, uma maneira de atrair pessoas, ou
fazê-las notar que existem", diz Randy Arndt,
diretor do Dunn Ranch, em Eaglesville, de onde
os visitantes assistem ao ritual de
acasalamento. "É meio irônico que, aqui, o nicho
viesse a se dever aos tetrazes, um animal que
sempre viveu aqui, desapareceu e terminou
voltando".
O turismo, que praticamente não existia na
cidade, agora se tornou assunto quente. Uma
pousada está para ser inaugurada, e as poucas
velhas empresas que restam estão começando a
sentir sinais de vida nova pela primeira vez em
décadas.
"Ver as coisas por fotos não é igual", disse
Jennifer McComb, negociante de antiguidades de
St. Louis que esteve na cidade recentemente. "Eu
chorei. É toda essa coisa da pradaria, e o fato
de que as aves estão à beira do desaparecimento.
Há pássaros que eu adoraria ter visto e
desapareceram há muito. E estes talvez não
sobrevivam. São complicados. São esquisitos. São
especiais".
O tetraz tem ligeira semelhança com a galinha
doméstica. Os machos têm listras marrons e creme
pronunciadas em suas penas e sobrancelhas
visíveis, e papos alaranjados que, quando
desincham, emitem o ruído grave característico
da espécie. As fêmeas são mais delicadas, e
menos vistosas. Axel Lischewski, um gerente de
empresa farmacêutica alemão que mora perto de
Frankfurt, queria ver os tetrazes antes de
concluir uma temporada de trabalho no Missouri.
"Ouvi falar da oportunidade, e decidi arriscar¿,
disse. "É um belo pássaro".
Os tetrazes escolheram o lugar porque se trata
da maior extensão de pradaria não cultivada da
região. Eles precisam de vastas áreas gramadas,
e seu declínio está associado ao da pradaria
tradicional, que continua a perder área em
função da demanda mundial por alimentos, que
pressiona a região em busca de safras cada vez
maiores.
"O lugar era popular para os tetrazes até mais
ou menos 1936, mas eles haviam desaparecido em
1950¿, diz Arndt. "Agora voltaram". A Nature
Conservancy, uma organização ecológica sediada
em Washington, é dona do terreno e oferece as
excursões guiadas a custo zero. Os observadores
de pássaros se reúnem no rancho e se escondem
por trás de uma placa de madeira dotada de
janelas retangulares de observação, instalada em
plena pradaria. O espaço disponível pode
acomodar até 10 pessoas por vez.
Agora, a visita anual das aves se tornou um
ritual benéfico para a comunidade. A praça
central de Eagleville se assemelha à de uma
cidade fantasma, mas o único café local vive
lotado no horário do almoço, e diversos dos
participantes de uma visita matinal ao ponto de
observação do acasalamento dos tetrazes
aproveitaram para almoçar em um restaurante que
atende os caminhoneiros de passagem pela região,
o Dinner Bell.
Nadine Ball, professora de pedagogia em St.
Louis, estava jantando em companhia de McComb, a
negociante de antiguidades. "Isso oferece uma
sensação de realidade", diz Ball. "Viajo muito,
e a cultura homogeneizada me cansa. Mas quando
você vem a uma cidadezinha como esta, não existe
nada de enlatado. No entanto, o que eu mais
sinto é tristeza ¿tristeza sobre os tetrazes,
porque restam tão poucos deles, e porque a vida
aqui é tão difícil. Espero que o ecoturismo
decole".
Lisa Cracraft está contando com isso. Chefe da
agência do correio em Denver, Missouri, uma
cidade vizinha, ela está dando os toques finais
em sua pousada, instalada em uma das maiores
casas locais, inteiramente reformada. "Acredito
que isso seja uma ótima oportunidade de nos
colocarmos no mapa", disse. "Os
tetrazes-da-pradaria realmente me propiciaram a
chance de pensar em abrir um negócio como esse.
Alguns anos atrás, eu nem pensaria nisso".
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