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Cientistas tentam decifrar a linguagem dos macacos
Atravessando a floresta Tai, na Costa do Marfim, Klaus
Zuberbühler podia escutar os chamados dos macacos-diana,
mas a tagarelice não fazia nenhum sentido para ele. Isso
foi em 1990. Hoje, após quase 20 anos de estudos de
comunicação animal, ele consegue traduzir os sons da
floresta.
Um chamado significa que um macaco-diana viu um
leopardo. E um segundo indica que ele avistou outro
predador, a águia-coroada. "No nosso período de
experiência, que foi uma experiência modesta, percebemos
que existe muita informação sendo passada de maneiras
que não havíamos percebido antes", disse Zuberbühler,
psicólogo da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Será que grandes primatas e macacos têm uma linguagem
secreta que ainda não foi decifrada? E se for o caso,
será que isso vai resolver o mistério de como a
faculdade humana da linguagem evoluiu? Biólogos abordam
o assunto de duas maneiras: tentando ensinar linguagens
humanas a chimpanzés e outras espécies, e escutando
animais na vida selvagem.
A primeira estratégia foi impulsionada pelo desejo
intenso das pessoas - talvez reforçado pela exposição
infantil a animais falantes em desenhos animados - de se
comunicar com outras espécies. Os cientistas dedicaram
imenso esforço para ensinar a linguagem a chimpanzés,
seja na forma de sons ou de sinais.
Em 1974, um repórter do New York Times que entende a
linguagem dos sinais, Boyce Rensberger, foi capaz de
realizar o que talvez seja a primeira entrevista
jornalística com outra espécie ao conversar com a
chimpanzé Lucy. Ela o convidou a subir numa árvore,
proposta que ele recusou, disse Rensberger, que hoje
está no MIT.
Mas, com poucas exceções, ensinar animais a linguagem
humana provou ser um beco sem saída. Eles talvez
devessem falar, mas não falam. Animais podem se
comunicar com muita expressividade - é só ver como os
cães definitivamente conseguem transmitir o que querem
-, mas não conectam sons simbólicos em sentenças ou
possuem qualquer coisa próxima a uma língua.
Uma melhor compreensão surgiu da escuta de sons feitos
por animais na vida natural. Em 1980, descobriu-se que
macacos da espécie Chlorocebus pygerythrus emitiam
alertas específicos para seus predadores mais perigosos.
Se os chamados fossem gravados e reproduzidos, os
macacos responderiam apropriadamente. Eles pulavam em
arbustos ao ouvir o chamado contra leopardos, olhavam
para o chão com o chamado contra cobras e olhavam para
cima quando o chamado contra águias era tocado.
É tentador pensar que a espécie possui palavras como
"leopardo", "cobra" ou "águia", mas não é bem assim.
Eles não combinam chamados com outros sons para produzir
novos significados. Eles não os modulam, até onde se
sabe, para comunicar que um leopardo está a 10 ou 100
metros de distância. Seus chamados de alerta se parecem
menos com palavras e mais como alguém dizendo "Ai!" ¿
uma representação vocal de um estado mental interior ao
invés de uma tentativa de comunicar uma informação
exata.
Mas os chamados pelo menos possuem significado
específico, o que é um começo. E os biólogos que
analisaram os chamados dos C. pygerythrus, Robert
Seyfarth e Dorothy Cheney, da Universidade da
Pensilvânia, detectaram outro elemento importante na
comunicação de primatas quando passaram a estudar
babuínos.
Os babuínos são bem sensíveis quanto à hierarquia de sua
sociedade. Se tocarmos uma gravação em que um babuíno
superior ameaça um inferior, com o último gritando
aterrorizado, os babuínos não darão qualquer atenção -
isso acontece sempre nos assuntos babuínos.
Mas quando os pesquisadores inventam uma gravação em que
um rugido de ameaça de um inferior precede o grito de um
superior, babuínos vão olhar surpresos em direção à
caixa de som que transmite essa aparente subversão da
ordem social.
Os babuínos evidentemente reconhecem a ordem na qual
dois sons são produzidos e relacionam diferentes
significados para cada sequência. Eles e outras
espécies, portanto, parecem muito mais próximos às
pessoas na compreensão das sequências sonoras do que em
sua produção. "A habilidade de pensar em sentenças não
os leva a falar em sentenças", escreveram os doutores
Seyfarth e Cheney no livro Baboon Metaphysics.
Algumas espécies talvez consigam produzir sons de
maneiras que estejam um passo ou dois mais próximas da
linguagem humana. Mês passado, Zuberbühler relatou que
os macacos-de-campbell, que vivem nas florestas da Costa
do Marfim, podem variar chamados individuais adicionando
sufixos, como na conjugação de um verbo.
Os macacos-de-campbell dão um alerta "crac" quando veem
um leopardo. Mas o acréscimo de um "-u" transforma-o em
um alerta genérico de predadores. Um contexto para o som
"crac-u" é quando eles escutam um alerta de leopardos
vindo de outra espécie, o macaco-diana. Os
macacos-de-campbell evidentemente seriam bons
repórteres, já que distinguem entre leopardos observados
diretamente (crac) e aqueles que escutaram outros
observar (crac-u).
Ainda mais notável, os macacos-de-campbell podem
combinar dois chamados para gerar um terceiro com
significado diferente. Os machos têm um chamado "bum bum",
que significa "estou aqui, venha até mim". Quando os "bum"
são seguidos por uma série de "crac-u", o sentido muda
bastante, afirma Zuberbühler. A sequência significa
"Madeira! Árvore caindo!"
Zuberbühler observou conquista similar entre os
macacos-de-nariz-branco, que combinam seu chamado "píou"
(alerta de leopardo) com seu chamado "rac" (alerta de
águia-coroada) em uma frase que significa "Vamos sair
daqui o mais rápido possível".
Grandes primatas têm cérebros maiores do que esses
macaquinhos e podem criar a expectativa de que produzem
mais chamados. Mas se há um código elaborado de
comunicação chimpanzé, seus primos humanos não o
quebraram ainda. Os chimpanzés produzem um chamado de
alimento que parece variar muito, talvez dependendo da
aparente qualidade da comida. Quantas formas diferentes
o chamado pode assumir? "Você teria que deixar que os
próprios animais decidam quantos chamados com
significado eles podem discriminar", disse Zuberbühler.
Um projeto desses, estima ele, pode levar uma vida
inteira de pesquisas.
Macacos e grandes primatas possuem muitas das faculdades
que fundamentam a linguagem. Eles escutam e interpretam
sequências de sons igual às pessoas. Eles têm um
controle bom de seu trato vocal e podem produzir quase o
mesmo rol de sons que os humanos. Mas eles não conseguem
juntar tudo isso.
Isso é particularmente surpreendente, porque a linguagem
é muito útil para uma espécie social. Depois que a
infraestrutura da linguagem se consolida, como é quase o
caso com macacos e grandes primatas, a faculdade deveria
desenvolver muito rapidamente em padrões evolucionários.
No entanto, os macacos circulam por aí há 30 milhões de
anos sem dizer uma única frase. Os chimpanzés também não
têm nada que se pareça com uma língua, embora tenham
dividido um ancestral em comum com os humanos há somente
cinco milhões de anos. O que manteve todos os outros
primatas fechados na prisão de seus próprios
pensamentos?
Seyfarth e Cheney acreditam que uma razão pode ser a
ausência de uma "teoria da mente"; o reconhecimento de
que os outros têm pensamentos. Já que um babuíno não
sabe ou se preocupa com o que o outro babuíno sabe, não
existe ímpeto para repartir seu conhecimento.
Zuberbühler sublinha que a intenção de se comunicar é o
fator ausente. As mais novas das crianças já têm um
grande desejo de compartilhar informação com outros,
mesmo não obtendo nenhum benefício imediato fazendo
isso. Não é isso que ocorre com os outros primatas.
"Por princípio, um chimpanzé poderia produzir todos os
sons que um humano produz, mas não o faz porque não há
nenhuma pressão evolucionária nesse sentido", disse
Zuberbühler. "Um chimpanzé não tem nada a dizer porque
ele não tem nenhum interesse em falar." Em algum ponto
da evolução humana, por outro lado, as pessoas
desenvolveram o desejo de compartilhar pensamentos,
observa Zuberbühler.
Felizmente para elas, todos os sistemas básicos de
percepção e produção sonora já existiam como parte da
herança primata, e a seleção natural precisou apenas
encontrar uma forma de conectar esses sistemas ao
pensamento.
Entretanto, é esse o passo que parece o mais misterioso
de todos. Marc D. Hauser, especialista em comunicação
animal de Harvard, vê a interação desinibida entre
diferentes sistemas neurais como crítica para o
desenvolvimento da linguagem. "Por alguma razão, talvez
um acidente, nosso cérebro é promiscuo de uma forma que
os cérebros dos animais não são, e depois que isso
emerge temos uma explosão", disse.
Nos cérebros dos animais, por contraste, cada sistema
neural parece estar preso no lugar e não consegue
interagir livremente com os outros. "Os chimpanzés têm
uma infinidade a dizer, mas não conseguem", disse Hauser.
Os chimpanzés conseguem ler os objetivos e as intenções
uns dos outros e fazem muitas estratégias políticas, em
que a linguagem seria muito útil. Mas os sistemas
neurais que computam essas interações sociais complexas
não se casaram com a linguagem.
Hauser está tentando descobrir se animais podem perceber
alguns dos aspectos críticos da linguagem, mesmo se não
conseguem produzi-la. Ele e Ansgar Endress relataram no
ano passado que saguis-cabeça-de-algodão conseguem
distinguir uma palavra acrescentada antes de outra da
mesma palavra colocada depois. Isso pode parecer a
habilidade sintática de reconhecer sufixo ou prefixo,
mas Hauser acha que se trata apenas da habilidade de
reconhecer quando uma coisa vem antes de outra, com
pouca relação com sintaxe.
"Estou ficando pessimista", disse sobre os esforços de
explorar se animais têm alguma forma de linguagem. "Eu
conclui que os métodos que temos são insuficientes e não
nos levam aonde queremos na demonstração de alguma
semântica ou sintaxe."
No entanto, como fica evidente na pesquisa de
Zuberbühler, existem muitos sons aparentemente sem
sentido na floresta que transmitem informações de
maneiras parecidas com a linguagem.
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