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Rio Grande do Sul região onde mais choveu no mundo

Com a residência alagada pelas águas do rio Uruguai, a dona de casa Nara Andrade, 43 anos, tentava salvar seus móveis na manhã de sexta-feira (27). Acompanhada do marido e dos dois filhos, ela carregava armários e colchões para um edifício em construção na região ribeirinha de São Borja, a cerca de 600 km de Porto Alegre, no oeste do Rio Grande do Sul.

O excesso de chuva registrado nas últimas semanas na fronteira do Estado com a Argentina elevou em 11 metros o nível do rio e inundou os lares de dezenas de famílias. "A água simplesmente invadiu a nossa casa, que ficou submersa. Estamos tentando salvar o que é possível. Mas, infelizmente, perdemos algumas coisas", afirma.

Morando há 10 anos às margens do rio, a dona de casa enfrentou a mesma situação pelo menos três vezes somente em 2009. Sem condições financeiras para adquirir um imóvel em uma região distante do Uruguai, ela conta que as cheias já provocavam prejuízos maiores para sua família em outras épocas. "Hoje, pelo menos existe esse prédio em construção próximo para a gente recolher nossos móveis. Antes, recorríamos aos bombeiros", diz.

A região onde vive a família de Nara é justamente a mais atingida pela seqüência de temporais e chuvas que devasta o Rio Grande do Sul em novembro. Nos últimos 15 dias, o oeste gaúcho é apontado pelo satélite da NASA como a área em que mais choveu no mundo. "O mapa estima a precipitação de chuva em todo o planeta e, nas duas últimas semanas consecutivas, o oeste do Rio Grande do Sul e o norte da Argentina aparecem disparados na imagem", informa o meteorologista Alexandre Aguiar, da MetSul.

De acordo com o instituto, o volume de chuva registrado naquela região oscila entre 500 e 700 mm - números 10 vezes superiores à média contabilizada em novembro. "Pelo mapa da Nasa, não conseguimos descobrir o volume do segundo ponto do mundo onde mais choveu, mas a imagem nos permite dizer que o primeiro foi em território gaúcho", diz.


 

Em São Borja, prejuízo equivale a 5% do PIB
Principal cidade do oeste gaúcho, São Borja decretou situação de emergência por 60 dias. O município de 61 mil habitantes, segundo a Contagem Populacional do IBGE de 2007, calcula R$ 44 milhões em prejuízos provocados pela chuva, o que equivale a 5% do seu Produto Interno Bruto (PIB). A cidade ainda contabiliza pelo menos oito famílias desabrigadas, 145 casas destelhadas, 320 árvores arrancadas e 1,8 mil quilômetros de estradas danificados.


Até a última sexta-feira (27), conforme levantamento da Fundação de Pesquisa Agropecuária (Fepagro) de São Borja, o índice pluviométrico acumulado desde o início do mês ultrapassava a faixa de 464 mm. No mesmo período do ano passado, o volume foi de 40 mm. O último novembro semelhante ao de 2009 foi o de 1993, quando choveu 347,9 mm.

O excesso de chuva prejudicou o setor agropecuário do município, considerado um dos principais produtores de arroz do País. Mais de 10,5 mil hectares do cereal estão submersos, de acordo com a Defesa Civil. O órgão registrou perda de 10% das lavouras de milho e queda de 60% na produção de leite.

O agropecuarista Jones Dalla Porta sente no bolso a seqüência de chuvas e temporais. Ele estima perda de 20% da produtividade da sua lavoura de arroz. Dos 1,3 mil hectares plantados, 150 estão submersos. Da plantação de 200 hectares de milho, 40% estão intoxicados pelo excesso de umidade. "Ainda não tenho como calcular uma estimativa da perda, mas só tenho chance de recuperação parcial dessa área se as chuvas cessem nos próximos dias, o que é difícil", diz.

Frentes frias e El Niño causam excesso de chuva
Proprietária de um restaurante no cais do porto de São Borja, Angela Amaral acessa seu estabelecimento somente de barco. Prevenida, antes de o local ficar inundado, ela transferiu os móveis para o segundo pavimento do prédio. "O restaurante representa metade da renda da minha família. Com o negócio fechado por causa da chuva, até a situação voltar ao normal, dependemos do dinheiro economizado", diz.

Para a meteorologia, a chuva que inundou o restaurante de Ângela, danificou a lavoura de Dalla Porta e inundou a residência da dona de casa Nara é provocada por frentes frias vindas do sul do continente e pelo ar quente e úmido que chega do norte do País. "Ao se chocarem, formam área de instabilidade e nuvens carregadas, que provocam as chuvas", diz o meteorologista Marcelo Pinheiro, do Climatempo.

Nesta época do ano, o fenômeno El Niño também influencia a ocorrência de chuvas. O aquecimento nas águas do Pacífico deixa o tempo chuvoso no sul do Brasil e secas prolongadas no nordeste e leste País. "Devido ao fenômeno, a previsão é de chuvas regulares até fevereiro de 2010", informa Pinheiro.



 

 

 

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