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Benignos ou não, fungos possuem papel essencial para vida

De acordo com uma lenda romana, houve uma vez um garoto cruel que torturou uma raposa amarrando palha à sua cauda e depois ateando fogo ao material. O deus Robigus ficou tão enfurecido que puniu a humanidade com a ferrugem do colmo do trigo, um pesadelo fúngico que arrasa as plantações e as deixa com aspecto queimado. Durante os séculos seguintes, os romanos visaram apaziguar a divindade por meio de sacrifícios anuais de cães e vacas, suficientemente azarados por possuírem pêlo cor de ferrugem.

Robigus, Deus dos Fungos, continua furiosamente entre nós, porém nos dias de hoje vem coletando seu sacrifício pessoalmente. No leste dos Estados Unidos, milhares de morcegos habitantes de cavernas morreram numa agressiva infecção causada por fungos chamada de "síndrome do nariz branco", e outras centenas de milhares, se não milhões, estão correndo risco de contrair a moléstia.

Sapos e salamandras estão morrendo em quantidades catastróficas ao redor do mundo, muito provavelmente de uma desordem causada por um fungo denominado chytridiomicose, o qual adere à pele dos anfíbios e desarranja sua química sanguínea. Florestas ao longo das costas oeste e sul da América do Norte estão encolhendo como resultado do crescimento de fungos injetados nas árvores por insetos perfuradores de madeira.

Já perdemos as majestosas castanheiras americanas para as pragas, e nossas árvores para a doença do olmo holandês. Não podemos simplesmente estourar algumas bombas gigantes de Ajax e purificar o mundo desses fungos infernais, seu mofo alergênico e seus esporos de bolor, sua podridão e murchidão, suas manchas e ferrugens, suas frieiras e seu pé de atleta, que pode acometer até mesmo o mais devoto dos sedentários? Não poderemos jamais livrar o mundo dos fungos, e, é claro, nem é nosso desejo fazê-lo.

Os fungos representam um reino em si mesmos e estão no alto da soberania taxonômica ao lado dos reinos Animalia e Plantae, das bactérias e dos protistas. Cerca de 100 mil espécies de fungos foram classificadas e os cientistas estimam que nos resta descobrir ao menos outros 1,5 milhão.

Os fungos estão em todos os lugares, em todos os continentes e em todos os mares, flutuando no ar, se disseminando no solo, descansando sobre sua pele, colonizando o interior das cavidades nasais e decorando festivamente aquele pêssego longamente rejeitado. Embora alguns fungos sejam patogênicos e matem os tecidos vivos em que penetram, a vasta maioria é benigna e muitos são essenciais às formas de vida a seu redor.

"Eles são os principais decompositores", sobrepujando até mesmo as bactérias, minhocas e vermes com sua indústria saprofágica, disse David J. McLaughlin, um micetologista da Universidade de Minnessota. Se você quer uma assepsia verdadeira, olhe para os frutos de Robigus. Os fungos também têm talento para a simbiose, estabelecendo com outros reinos relações que os mantêm alimentados e felizes enquanto fornecem muitos benefícios para seus parceiros.

Talvez 90% de todas as plantas terrestres dependam dos assim chamados fungos micorrízicos, que deitam raízes e sugam modestamente seus açúcares vegetais para, em retorno, supri-las com nutrientes do solo, tais como fósforo e nitrogênio. Ademais, os botânicos suspeitam que as plantas talvez nunca pudessem ter se estabelecido no solo há 500 milhões de anos sem seus assistentes micorrízicos.

Os fungos podem também ter dado origem à cultura humana ou ao menos à comédia da cortesia humana. Por uma fatia de pão para dividir com velhos amigos e uma jarra de vinho para nos auxiliar a forjar novas amizades, podemos agradecer aos fungos Saccharomyces, encontrados nos fermentos e leveduras.

Mais recentemente, os Saccharomyces têm servido como um modelo consensual em pesquisas de laboratório, uma excelente maneira de explorar como os genes se comportam e as células se dividem - além do mais, são muito mais baratos que um roedor. As células fúngicas se mostraram surpreendentemente similares às células animais e os pesquisadores determinaram que as linhagens dos fungos e dos animais só se separaram nove milhões de anos depois de terem se distinguido das plantas.

Os traços definidores de um fungo são digestão e arquitetura. Enquanto os animais primeiro ingerem uma refeição e então a digerem internamente, os fungos fazem o inverso. Após se unirem a uma fonte de alimentação adequada, eles liberam enzimas para quebrar a substância em um combinado de açúcares e aminoácidos, os quais eles podem absorver por meio das membranas de suas hifas filamentosas. Alguns fungos permanecem com uma estrutura simples, às vezes até unicelular, porém outros podem brotar em corpos frutosos recheados de bilhões de esporos microscópicos, bilhões de fungos em miniatura ansiosos pela sua liberação.

Os mais famosos corpos frutosos são os cogumelos, com seus pigmentos vívidos de propósitos enigmáticos e suas formas ainda mais inescrutáveis - aqui uma almofada de alfinetes em rosa "pink", ou um ninho de pássaros cheio de ovos, ali uma enorme língua negra e um maço de corais cor de manteiga. Havendo comida e espaço suficientes, os filamentos de um fungo subterrâneo podem crescer sob milhares de acres de terra e persistir por séculos ou milênios, fazendo brotar, durante todo o tempo, cogumelos geneticamente idênticos sobre a terra. Há mesmo discussão entre os biólogos se tais massas de hifas podem ser qualificadas como alguns dos maiores e mais antigos organismos da Terra.

A maioria dos fungos está adaptada para crescer em ambientes frescos ou de florestas, a cerca de 15,5º C, talvez 21º C, razão pela qual a maioria dos agentes patogênicos entre eles tende a atacar plantas, insetos ou animais de sangue frio como répteis ou anfíbios. Mesmo nesses casos, a maior parte das doenças causadas por fungos não é fatal, o que indica que a sepa virulenta à qual se atribui a recente morte em massa de anfíbios pode ter sido introduzida nas populações naturais por sapos utilizados em pesquisas médicas.

Com suas temperaturas corporais altas, mamíferos e pássaros sofrem de poucas doenças causadas por fungo, salvo aquelas confinadas a regiões frescas da epiderme. Os morcegos são mamíferos, porém a espécie atualmente afetada pela síndrome do nariz branco é de morcegos que hibernam em cavernas. Quando o morcego entra em um estado de hibernação, diz David S. Blehert, um microbiologista do Centro Nacional de Saúde de Animais Silvestres do Serviço Geológico dos EUA, em Madison, Wisconsin, sua temperatura corporal cai para alguns graus abaixo da temperatura da caverna, cerca de 6,5º C.

"Este patógeno está tratando os morcegos como se eles fossem pedaços de queijo esquecidos no fundo da geladeira", afirma Blehert. Ademais, o fungo em questão aparenta ser de uma virulência incomum. "Estamos observando um pico de 90% de taxa de mortalidade em algumas regiões", acrescentou Blehert.

Desde que a doença foi primeiramente identificada no oeste de Albany, Nova York, em março de 2007, ela se espalhou para morcegos de nove estados e está em vias de alcançar populações de morcegos que se agregam em grupos de 300 mil indivíduos, "a maior colônia de mamíferos hibernantes do planeta", segundo Blehert.

No esforço de bloquear a passagem do patógeno, autoridades em animais silvestres estão fechando algumas cavernas para impedir o tráfego humano nesses locais - por enquanto, esta é a única medida na qual eles puderam pensar para acalmar a ira de Robigus e deixá-la bem longe de nós.



 

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