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Rotas para onças ajuda em sua sobrevivência

Hector Porras-Valverdo tentou adotar uma atitude quando descobriu recentemente que onças haviam devorado duas de suas vacas. O número de onças pode estar em queda, mas elas continuam a percorrer as selvas aqui na região de Las Lomas, leste da Costa Rica, e fazem sentir sua presença ao ocasionalmente devorarem galinhas, porcos.
 


"Compreendo que os felinos agem assim porque precisam sobreviver", disse Porras-Valverdo, 41, um corpulento pecuarista. Alguns anos atrás, reconheceu, sua reação inicial seria sido apanhar uma arma. Mas agora sua fazenda fica localizada no centro do território que a Costa Rica designou como um "corredor das onças" - um percurso protegido que permite que os animais sorrateiros e notívagos cruzem em segurança áreas ocupadas pela civilização.

Nos últimos anos, corredores como esse foram criados na África, Ásia e América a fim de ajudar os animais a enfrentar as ameaças do século XXI, da intrusão de rodovias e shopping centers à mudança no clima.

Esses caminhos virtuais representam uma virada importante nas estratégias de conservação. Como muitos países, a Costa Rica tradicionalmente tentava proteger os mamíferos de grande porte, a exemplo das onças, por meio da criação de santuários - terras adquiridas para dar aos animais ameaçados um lar no qual possam comer, se acasalar e procriar em segurança.

Mas nos últimos 10 anos, cientistas compreenderam que corredores de conexão entre esses santuários são necessários, porque muitas espécies dependem, para sua sobrevivência, da migração de pequeno número de animais entre diferentes regiões, a fim de permitir uma combinação de pools genéticos e reocupação de áreas devastadas por desastres naturais ou doenças. Colocar animais em reservas isoladas, constataram estudos, reduz a diversidade e acarreta o risco de uma redução no vigor da espécie - como se moradores de Nova York e da Califórnia fossem impedidos de se encontrar para procriar.

"Foi uma espécie de epifania", disse Alan Rabinowitz, zoólogo e presidente da Panthera, uma organização que estuda e promove a conservação de felinos de grande porte. "Estamos dando a eles boas terras em que viver, mas o que eles fazem, e precisam fazer, é se deslocar clandestinamente entre regiões".

Ele afirmou que as rotas críticas de migração eram especialmente vulneráveis nos países em desenvolvimento, onde novas estradas, shopping centers, represas, parques e bairros podem surgir do dia para a noite, bloqueando a passagem dos animais. Para corrigir esse descuido, a Costa Rica e outros países começaram a identificar e proteger corredores para onças e outros grandes mamíferos, a exemplo dos tigres, leopardos da neve e pandas.

A maioria dos corredores não envolve rotas claramente demarcadas, mas sim trilhas virtuais, "protegidas" no sentido de que construtores e planejadores não são autorizados a introduzir obstáculos aos movimentos dos animais pela área.

A ideia não é deter completamente as construções, mas ajustar o desenvolvimento de modo que os animais possam se mover por uma área também ocupada por seres humanos. Uma cerca alta em torno de um shopping center pode ser proibida, por exemplo, ou uma estrada de ruas faixas de rodagem utilizada em lugar de uma via expressa duas vezes mais larga.

Os moradores locais também precisam ser convencidos a não atirar contra os intrusos selvagens ou afugentá-los de outras maneiras quando estão em trânsito, uma virada de comportamento que já começa a ganhar raízes por aqui.

"É claro que as onças ocasionalmente enfrentam conflitos com as comunidades, mas agora as pessoas foram educadas de forma a mudar seu modo de pensar, e a não vê-las como perigosas", diz Victor Falla Ramirez, agrônomo que cultiva plantas ornamentais em Las Lomas.

A ameaça do aquecimento global tornou mais urgente a tarefa de criar corredores, porque os animais precisarão mudar de habitat quanto a mudança do clima resultar em alta da temperatura.

"Trata-se de uma ideia que as pessoas vêm considerando como muito convincente, especialmente agora, porque com a mudança do clima as espécies precisarão da capacidade de se deslocar", disse Norman Christensen, professor de ecologia na Universidade Duke cuja equipe está trabalhando para definir corredores na América Central, Índia e África.

Embora Christensen defina a Costa Rica como "bom exemplo" para os seus esforços, disse que corredores para mamíferos de grande porte estão sendo criados também em lugares como Uganda e a China. O Banco Mundial está financiando projetos de corredores no Brasil e Peru; o mais importante é que seus planejadores no ramo do transporte estão trabalhando com os especialistas em conservação a fim de que garantir que, na construção de rodovias e ferrovias que permitem a livre movimentação dos seres humanos, o movimento dos animais não seja destruído, disse o estudioso.

Parte do motivo para que os passados esforços de conservação se concentrassem na criação de reservas era a falta de dados precisos sobre os padrões de deslocamento e acasalamento de animais de grande porte como as onças; esses grandes predadores preferem as selvas densas, são notívagos e extraordinariamente tímidos.

Assim, quando novas técnicas permitiram que os cientistas estudassem pela primeira vez o genoma das onças, uma década atrás, ficaram chocados por descobrir que as onças do norte do México tinham exatamente a mesma composição genética que as da ponta sul da América do Sul.

Isso significa que houve uma era em que onças se deslocavam de ume extremo a outro da América para se acasalar; de outra forma, o isolamento das populações de onças em cada área do continente teria causado divergência entre suas composições genéticas. Pelo menos alguns machos da Colômbia estavam se deslocando ao Panamá para acasalamento, e outros espécimes viajavam a Belize ou ao México.

"Foi surpreendente, mas a impressão era a de que eles tinham um único habitat contínuo", disse o zoólogo Rabinowitz.

Os cientistas estavam convencidos de que as onças jamais cruzariam uma barreira aquática da largura do Canal do Panamá, que fica bem no meio de seu habitat mais amplo. Mas quando montaram câmeras para observar onças perto do canal, descobriram que, com alguma frequência, espécimes corajosos atravessavam o canal a nado, garantindo a continuidade da transferência genética entre norte e sul.

A Costa Rica agora requer que os incorporadores imobiliários considerem se um projeto poderia cortar um corredor essencial, ou ofereçam outros métodos para que as onças possam percorrer a área em segurança.

O fato de que as onças e outras grandes espécies de felinos viajem de noite e não cacem quando em movimento torna mais fácil sua coexistência com os seres humanos. "O resumo é que os grandes felinos podem conviver com as pessoas", disse Rabinowitz. "Não se pode dizer o mesmo sobre todos os animais".

Ele prossegue: "O problema com o paradigma da conservação é que ela é vista como confronto entre a natureza e o desenvolvimento, e não permitirá que progresso aconteça".

Na Costa Rica, a Panthera está realizando pesquisas a fim de definir melhor as rotas que as onças percorrem, e pressionando políticos e empresários imobiliários a respeitá-las. A organização também patrocina programas de integração comunitária para resolver o que os pesquisadores definem como "questões de conflitos com onças".

"Muitos lugares não desejam os corredores", disse Roberto Salom, coordenador regional da Panthera. "Nós nos aliamos a diversos líderes e educadores, mas o processo é lento".

Nas selvas da América Central, as onças são consideradas como místicas e perigosas. De acordo com lendas locais, pessoas se tornam onças ao entrar na floresta e depois deixam as pintas para trás ao retornar à aldeia. "Vi rastros, mas nunca vi o animal", disse Enoc Bajo Chiripo, um líder indígena que colabora com a organização. ¿Mas o cheiro delas é perceptível quando estão por perto¿.

As famílias da região contam histórias sobre onças da mesma maneira que as famílias de Nova York contam histórias sobre a chegada de seus ancestrais à ilha Ellis.

"Minha avó viu uma delas no lugar em que os animais vêm comer", diz Jordi Ortiz-Camacho, 12, falando de uma onça. "Meu avô a matou a pauladas porque sua arma não funcionou".

Embora os agricultores locais agora se disponham a perdoar uma ou duas vacas perdidas, se isso permitir que as onças sobrevivam como espécie, eles relutam em fazer sacrifícios maiores. Perto de Las Lomas, um projeto de hidrelétrica requereria a construção de uma grande represa atravessando o vale, para criar um reservatório de 500 metros de largura e cinco quilômetros de comprimento. Construída da maneira planejada, a barragem bloquearia um corredor das onças.

O novo projeto significaria empregos, valores mais altos para os imóveis e melhora nos serviços básicos da área, entre os quais estradas e água encanada, disse o agrônomo Fallas Raimrez. E a comunidade não pode renunciar a isso.

"Para nós e as onças, é só um obstáculo", disse o biólogo Salom, que está em busca de soluções alternativas, tais como uma ponte para animais ou barragem menor. "Estamos tentando pensar em como mitigar a dificuldade".

 

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