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Desmate faz nuvem "seca"
proliferar na Amazônia
Um estudo que monitorou os tipos
de nuvens que cobrem a floresta amazônica mostra que o desmatamento parece estar
causando tanto alterações na terra quanto no céu. Usando imagens de satélites e
dados obtidos por balões meteorológicos, cientistas brasileiros e
norte-americanos comprovaram a teoria de que a derrubada de árvores favorece a
formação de nuvens "rasas", em contraposição a nuvens "profundas", mais
chuvosas.
A conclusão ocorreu após análise de imagens e informações de Rondônia. O novo
estudo ajuda a explicar por que o desmatamento faz a floresta ficar mais seca e
corrobora com os estudos que prevêem a conversão da Amazônia em savana.
"No momento em que temos uma floresta que retém bastante água, temos um ciclo da
água, um ciclo de energia. Quando retiramos a floresta e a cobertura vegetal,
mudamos esse ciclo. Certamente vai se criar outro cenário climático na região",
afirma o meteorologista Luiz Augusto Machado, um dos autores do estudo. Ele é
pesquisador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe
(Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
O trabalho foi publicado ontem na revista "PNAS", da Academia Nacional de
Ciências dos EUA. O climatologista do Inpe Carlos Nobre, que não participou da
pesquisa, diz que "uma generalização destes resultados vai na direção de apoiar
a hipótese de savanização". Mesmo não sendo possível afirmar ainda que isso vale
para toda a Amazônia, Nobre diz que os resultados "são fisicamente consistentes
e indicam que as chuvas poderiam diminuir com o aumento do desmatamento".
Segundo Machado, a brasileira Elen Cutrim foi, em 1995, uma das primeiras a
descrever esse fato de forma empírica e artesanal. "Agora, comprovamos com uma
longa série de dados o estudo dela", disse.
Rafael Bras, da Universidade da Califórnia em Irvine, coautor do estudo,
explicou o fenômeno em e-mail para a Folha. Segundo ele, nuvens rasas sobre
desmatamentos ocorrem por mudanças na convecção, o movimento de massa de ar por
diferença de calor --mesmo princípio físico que faz um balão de ar quente subir.
Oceano verde
"Se a região de desmatamento aumentar, a intensidade desta circulação pode
diminuir e, mais importante, ficar mais seca e limitar o desenvolvimento de
precipitação sobre a floresta", diz Bras. "No artigo, nós chamamos isso de
"efeito do oceano verde".
Para ele, a floresta funciona como um oceano fornecendo vapor d'água para
alimentar nuvens profundas. "Se o "oceano" desaparecer, o vapor d'água, a
energia e a precipitação também desaparecem", diz.
Jingfeng Wang, coautor do estudo ligado ao MIT (Instituto de Tecnologia de
Massachusetts), diz que o tamanho e forma da terra desmatada influenciam na
possibilidade de recuperação da floresta. "O que não sabemos é quanto
desmatamento é demais para que o "oceano verde" entre em colapso e suma para
sempre", diz.
Enio Pereira de Souza, professor da Universidade Federal de Campina Grande, diz
que o estudo confirma resultados de pesquisa que ele realizou há dez anos. Ele é
ex-colaborador de Nilton Rennó, da Universidade de Michigan, um dos autores do
estudo na "PNAS".
Souza conta que, na época, os estudos que indicavam o aumento das nuvens rasas
sobre regiões desmatadas não eram muito aceitos por falta de provas. Segundo
ele, sempre se deu mais importância às nuvens profundas. Mas agora, diz, o
mapeamento das nuvens rasas se tornou "central na compreensão de todo esse
mecanismo ligado à troca de energia entre a superfície e a atmosfera e como isso
se relaciona com o clima global e eventos extremos de precipitação".
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