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Águias viram canibais por falta de presas
Algumas águias americanas do Alasca agora estão baseando
sua dieta primordialmente em outras aves, de acordo com
um novo estudo. A nova dieta é um efeito secundário
surpreendente das alteração em uma cadeia alimentar que
inclui lontras marinhas, ouriços do mar e florestas de
kelp submarino, bem como os peixes que delas dependem,
afirmam pesquisadores.
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Quando as lontras
marinhas praticamente desapareceram das ilhas
Aleutas, isso beneficiou muito os ouriços do
mar, que constituíam um dos alimentos prediletos
das lontras.
A expansão na população de ouriços do mar, por
sua vez, começou a reduzir as florestas
submarinas de kelp da área. As florestas se
reduziram dramaticamente, o tornou as águas
costeiras pouco hospitaleiras para os peixes
dependentes do kelp como habitação. |
Esses peixes, por sua vez, eram a fonte primordial de
alimentação das águias americanas. "As lontras marinhas
tiveram efeito considerável sobre as comunidades
marinhas que vivem perto da costa", disse Robert
Anthony, o diretor científico do projeto.
"Os efeitos se fazem sentir ao longo de todo o sistema e
afetam indiretamente uma série de espécies, entre as
quais as águas americanas "outro predador que se
alimenta no da cadeia alimentícia".
Até mesmo os pesquisadores estão surpresos por o
declínio na população de lontras marinhas ter causado
efeitos secundários que afetaram cinco espécies,
chegando até às águias americanas, diz Anthony,
ecologista do Serviço de Levantamento Geológico dos
Estados Unidos e da Universidade Estadual do Oregon.
Dos peixes às aves
Anthony e seus colegas reuniram informações detalhadas
sobre as águias americanas das ilhas Aleutas no começo
dos anos 90, quando a população de lontras marinhas do
arquipélago era relativamente elevada. Os pesquisadores
retornaram ao local 10 anos mais tarde, e constataram
que a população de lontras marinhas havia reduzido em
90%.
Os pesquisadores contaram o número de casais de águias
americanas e estudaram o que as aves vinham comendo.
Restos de "jantares" encontrados em ninhos revelam que
elas trocaram os peixes e mamíferos - entre os quais
filhotes de lontras - por aves.
As águias ainda comem alguns peixes, principalmente de
espécies que não dependam de kelp. As águias tinham mais
filhotes na segunda visita, possivelmente porque aves
oferecem mais calorias do que peixes. A população geral
de águias, porém, continuava mais ou menos a mesma,
segundo Anthony.
"As mudanças causadas pelo declínio das lontras marinhas
pareciam neutras - ou talvez até positivas - para as
águias americanas", ele diz. "Trata-se de uma espécie
muito adaptável e de um predador oportunista".
Quanto à causa do desaparecimento das lontras, Anthony
disse, "não sabemos ao certo mas existe pelo menos uma
teoria plausível".
Uma história grande
Os avanços na caça de lontras marinhas por baleias
assassinas é a principal causa direta do colapso na
população de lontras marinhas das Aleutas nos anos 90,
afirma o co-autor do estudo, Jim Estes. Ele lembra,
porém, que o estudo em curso trata das conseqüências do
colapso na população de lontras, e não de suas causas.
A questão das baleias é sensível por diversos motivos,
entre os quais a intriga nacional e internacional que
sempre parece cercar as baleias de grande porte.
"Mas, pelo menos em minha opinião, essa é uma história
muito maior do que lontras, ouriços do mar, kelp, peixes
e águias", disse Jim, que trabalha na Universidade da
Califórnia, em Santa Cruz.
A maior parte das baleias assassinas, ou orcas, em geral
se alimenta de peixes. Mas alguns grupos caçam outros
mamíferos marinhos, e os especialistas em baleias são
facilmente capazes de identificar esses grupos, por suas
marcas.
As baleias assassinas que se alimentam de mamíferos
tradicionalmente tomavam por presas as grandes baleias
como espermacetes, baleias corcundas ou baleias comuns,
acredita. Mas, pela metade do século 20, a exploração
comercial da baleia havia erradicado todas essas fontes
de alimento.
O declínio nas populações de grandes baleias levou as
orcas a se alimentar de presas cada vez menores -
primeiro focas, depois leões - marinhos e agora lontras,
afirma Jim.
Número "espantoso" de conexões
Bernie Tershy, da Universidade da Califórnia em Santa
Cruz, descreveu o relatório como "interessante e
bastante preciso". É "bem aceito", com base em pesquisas
anteriores, que as orcas são a causa direta no declínio
da população de lontras marinhas das Aleutas, afirmou em
mensagem de e-mail o pesquisador, que não participou do
estudo.
"O número de conexões alteradas pela mudança na dieta
das orcas é espantoso", diz Tershy, que já foi
pesquisador da National Geographic Conservation Trust,
proprietária da National Geographic.
Holly Jones, doutoranda na Universidade de Yale, havia
publicado um relatório alguns meses atrás sobre a ameaça
de espécies invasivas de ratos aos pássaros ilhéus.
Jones avaliou de maneira mais ampla os possíveis efeitos
do novo comportamento das águias na caça.
"Se as águias começarem a exercer impacto dramático
sobre as populações de aves marinhas... esses efeitos
continuariam a se fazer sentir nos ecossistemas das
zonas de maré e em comunidades ilhoas completas",
afirmou em e-mail a pesquisadora, que também não
participou do estudo.
O estudo sobre a conexão entre as lontras marinhas e os
hábitos alimentares das águias "demonstra o quanto os
vínculos entre os ecossistemas são importantes, e o
quanto eles podem ser frágeis".
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